Crônica de minuto #47 ou Feliz Natal – Silmara Franco

Crônica de minuto #47 ou Feliz Natal – Silmara Franco

O mais bonito no presépio instalado na sala de casa, quando eu era criança, não era a manjedoura. Nem José, nem Maria, nem as vaquinhas fungando atrás do berço improvisado. Não era nem o Menino Jesus, para ser honesta. O mais interessante no presépio era o laguinho, feito com um pedaço de espelho.

 

Quando as peças eram desencaixotadas, após longo exílio no armário desde o Dia de Reis, minha maior preocupação era se o espelho estaria intacto. Temia que houvesse quebrado. Mas alguém estendia o pano verde de cetim e o cenário natalino ia sendo produzido. Reis magos surgiam ao lado de camponeses, ovelhas. A neve de isopor dava o ar da graça em meio ao morno dezembro. O lago era desembrulhado. O Natal estava garantido.

 

Eu brincava com a serragem em volta dele, imitando terra. Assim, dava contornos diferentes à lagoinha, todos os dias. Ora colocava o carneirinho tomando água numa margem, ora na outra. Alterava a órbita dos personagens, mudava os patos de lugar. Eu não queria saber de nascimento, eu já tinha um Natal só meu; era esse o nome da minha rua. E eu só queria saber do espelho. Tal um índio encantado diante das bugigangas que o homem português traria ao nosso continente, tantos anos depois daquela noite feliz. Tal a rainha má e perguntadeira, obcecada pela própria beleza. Tal Narciso, o moço autoapaixonado. Mas eu não era nenhum deles; era uma menina, que via importância no desimportante.

 

Por isso, hoje tento prestar bastante atenção aos olhos dos meus filhos quando admiram um presépio ou falam de Natal. Que é para descobrir qual fotografia particular, do nascimento mais icônico do planeta, eles levarão consigo vida afora. Quais lembranças, quando adultos forem, lhes serão mais líquidas. Feito a água, imaginária e doce, que se entregava ao velho espelho, espelho meu.

 

Imagem: Alex Levin

Silmara Franco

Silmara Franco

Silmara é paulistana. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Resistiu bravamente a transferir seu título de eleitor, que era para voltar de vez em quando ao colégio onde aprendeu a ler e escrever. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada.
Silmara Franco
4 Comentários
  • Eliete
    Responder

    Que delícia! Lembrar do espelhinho-lago me fez lembrar das rochas feitas de papel de presente malhado de cinza e branco. Ganhavam forma pelas mãos da minha mãe e não desmanchavam. Incrível! O que mais me alegrava na árvore de natal, entre tantas bolas e papais Noel, era um liquidificadorzinho. Que encanto!

    09/12/2017 at 18:15
    • Tão bom resgatar essas lembranças mágicas, não é!? Feliz Natal!

      12/12/2017 at 18:50
      • Silmara Franco
        Responder

        Mais que bom, Iana, considero fundamental. Pra nunca perder de vista de onde viemos. Beijos

        18/12/2017 at 12:40
    • Silmara Franco
      Responder

      Nossa, Eliete! As rochas… também tinham no meu. Obrigada por lembrar… Beijos

      18/12/2017 at 12:39

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