As árvores – Silmara Franco

As árvores – Silmara Franco

No caminho da escola Nina, sete anos, vai perguntando quem é o quê na família. Vou explicando que meus irmãos, as irmãs de seu pai e os respectivos companheiros são seus tios e tias. E que os filhos de todos esses, meus sobrinhos, são seus primos.

 

Hoje estamos só eu e ela. Olho pelo retrovisor e quase posso ouvir sua cabecinha trabalhando, estabelecendo as conexões da nossa frondosa árvore genealógica que, passadas gerações, uniões, desuniões e novas uniões, já deve ter formado uma bela floresta. Pensa que é fácil entender como é que a gente é, ao mesmo tempo, mãe, filha, neta, bisneta, prima? Uma miscelânea de parentescos para explicar um único personagem, em um único galho da imensa árvore.

 

Quando eu tinha a idade da Nina, gostava de fuçar os álbuns de fotografias da família. Via a galeria de rostos conhecidos e outros desconhecidos – entre estes, alguns causadores da minha existência. Acostumei-me a ver os antigos em preto e branco, como se assim eles fossem na vida real. Pensava quem mais, além de mim, teria um bisavô sem cor.

 

Nina já sabe, mas quer confirmar: “O Bruno é o quê seu?”. Ter um enteado é como parir ao contrário; é filho que não sai pela barriga, mas entra pelo coração. Conto que ele tem mãe, a ex-esposa de seu pai, e outra irmã, filha do marido de sua mãe e que, apesar disso, não é sua irmã. Agora dei nó. Logo esquecido, assim que ela manifesta seu desejo para que Bruno, quinze anos mais velho, tenha filhos. “É que eu quero ser tia logo”.

 

Quando explico sobre as esposas e maridos dos cunhados e cunhadas, ela solta: “Mas então eles não são assim tããão da família, né?”. Eu rio. E penso duas vezes antes de registrar isso aqui.

 

Ela segue, querendo saber de todos. Conclui que para ter filhos é preciso se casar. E eu concordo. Para quê complicar, se estamos somente a três quarteirões da escola?

 

Já no topo da nossa árvore, agora ela pergunta se os que se foram conseguem vê-la. Digo que sim. Simplesmente porque não poderia afirmar que não. E também porque a vida fica mais bacana assim.

 

Estaciono, ela se prepara para descer. Antes, confere as trancinhas cor de rosa (ganhou ontem um spray de cabelo). Apanha suas coisas, me dá um beijo e vai. Esquece que brigamos feio um pouco antes, e eu esqueço também. As rodinhas de sua mochila vão arranhando o cimento da calçada e, em coro com as dos outros alunos que passam, compõem a trilha sonora do meu começo de tarde. O chão está forrado de pitangas maduras e esquecidas, caídas do enorme pé em frente à escola. Todo fruto é filho de um fruto anterior. As árvores também têm sua árvore genealógica. Bem mais simples que a nossa.

 

Espio até que ela entre pelo portão. É bonita, a filha do meu marido, irmã do meu primogênito, bisneta dos meus avós e, quem sabe, mãe dos meus netos. Os daquele galhinho, que ainda nem brotou.

 
 

Ilustração: Adrian McO-Campbell

Silmara Franco

Silmara é paulistana. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Resistiu bravamente a transferir seu título de eleitor, que era para voltar de vez em quando ao colégio onde aprendeu a ler e escrever. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada.
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