A hierarquia da louça – Silmara Franco

A hierarquia da louça – Silmara Franco

Há que ter, numa pia, certa ordem na louça a ser lavada. As múltiplas castas – porcelana, inox, vidro, plástico – convivem pacificamente, mas têm lá suas particularidades. Não toleram o caos. Em casa, a missão é minha. Encerrado o banquete, ajeito tudo. Até a louça alheia, caso o anfitrião permita (a área de trabalho fica um luxo só; posso não conduzir a lavação, mas a pré-lavagem está garantida).

 

Para começo de conversa: panelas – miúdas, graúdas e independente do design – não se misturam à turba. Guardam em si a essência dos alimentos, o segredo do feitio. São os monarcas da cozinha. Solitários ingredientes se reúnem no verão de seu interior antiaderente (ou não), fazem festa, se transformam. A tampa se abre, e a mágica está pronta. O aroma invade o ar, enlouquece o olfato, quer se casar com o paladar. Portanto, a regra é: panelas que prepararam o alimento aguardarão o banho na sala da cozinha.

 

Pratos são príncipes. Rodeados de pompa, são o centro das atenções. Mimados. Só porque recebem o produto da mágica, apresentando-o a nós, comensais. Atenção: sob torneira, nada de deitar sobre eles os talheres usados. A parceria só funciona quando estão juntos na degustação. Na pia, é cada macaco no seu galho. Pratos fazem volume, a despeito da perfeita encaixabilidade. São ruidosos, querem toda atenção para si. Melhor dar conta deles primeiro, aninhá-los logo no escorredor. Assim sossegam.

 

Os copos, também filhos do rei, porém sem direito à coroa, são infantes melindrosos. Chateiam-se por qualquer coisa. Carecem ficar separados de todo resto, são sensíveis à gordura e, ironicamente, cheios de não-me-toque. Não contam com a característica dos pratos; dispô-los um dentro do outro é um tremendo vacilo. As taças não entram nessa farra. Nem tente. São frescas. E ficam de mal se aguardam o enxágue ao lado dos parentes de requeijão.

 

Súditos fiéis, a trupe de talheres e utensílios em geral está para o que der e vier: puxar na manteiga, mexer até levantar fervura, fatiar fininho, engrossar, reduzir. Depois, um seleto grupo deles faz bonito, ajudando na comilança. São simbióticos na hora da limpeza. Pegam carona com quem esteja disposto a acolhê-los: a leiteira que ferveu a água para o cafezinho, a vasilha do molho, a saladeira. Ali, aguardam serenos sua vez com a esponja.

 

Marido tirando a mesa no fim de semana: põe tudo pelo avesso, mistura o imiscigenável. Instala na cuba o desafio ao equilíbrio, o acinte à estética, a tortura à logística. Discretamente, vou lá organizar o movimento, orientar o Carnaval. Fila feita, mãos à obra. Luvas para não prejudicar a manicure. Água e detergente para levar embora o refugo do almoço. (Para onde, mesmo?) Ensaboa, mulata, ensaboa. Na caixa, Rolling Stones. Que ninguém é de ferro. Nem de alumínio.

 

Imagem: ilustração de Gustav Söderström/Flickr.com

 

 

Silmara Franco

Silmara Franco

Silmara é paulistana. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, onde viveu por mais de três décadas. É publicitária por formação e escritora por salvação. Resistiu bravamente a transferir seu título de eleitor, que era para voltar de vez em quando ao colégio onde aprendeu a ler e escrever. Mora em Campinas (SP) com a família e a gataiada.
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