Vamos falar de linguagem inclusiva, não sexista? – Iana Ferreira

Vamos falar de linguagem inclusiva, não sexista? – Iana Ferreira

Recentemente, um debate nacional teve lugar na França depois que uma professora escreveu um livro didático adotando a chamada a linguagem inclusiva (ver reportagem do El País aqui). Embora ela simplesmente tenha seguido um guia do próprio governo francês “para uma comunicação pública sem estereótipos de sexo”, seu livro motivou ondas de indignação e dividiu a população, políticos e intelectuais do país, chegando obviamente à Academia Francesa de Letras.

 

Esta emitiu, então, no final de outubro, um comunicado no qual seus quarenta imortais se declararam contrários ao uso da linguagem igualitária. O ponto mais polêmico do referido comunicado, no entanto, foi a afirmação de que “diante desta aberração inclusiva, a língua francesa se encontra a partir de agora em ‘perigo mortal’. Nossa nação é responsável perante as gerações futuras…”.

 

O QUE É A LINGUAGEM INCLUSIVA?

 

De acordo com alguns sociólogos e linguistas, usar o masculino para se referir a todos os indivíduos, ou seja, usar o masculino como regra e o feminino como exceção, é uma ferramenta poderosa para reproduzir e reforçar os preconceitos de gênero, os estereótipos e a invisibilidade e exclusão da mulher – bem como de indivíduos de gênero não-binário, aqueles que não se identificam nem como homens nem como mulheres.

 

A linguagem inclusiva ou não sexista luta contra isso e contra outras formas de segregação.

 

COMO FUNCIONA?

 

Há diferentes sistemas que se propõem a diminuir as diferenças entre gêneros na língua. O que está mais em evidência, tendo surgido em tempos recentes, substitui as letras “o” e “a” nas palavras com gênero masculino e feminino por “@”, “x” ou “e”.

 

Quem já não viu por aí, ao invés de “amigos” ou “amigas”, as formas “amigxs”, “amig@s” ou “amigues”? (Isso só se aplica, obviamente, à linguagem escrita.)

 

Há também a forma mais clássica de usar as letras que se referem ao feminino entre parênteses – como em alunos(as), professores(as), eles(as) –, embora contra isso se possa argumentar que, neste caso, o gênero masculino também fica num primeiro plano, mais evidente e privilegiado. Ou pode-se recorrer ainda à duplicação das palavras, citando, inclusive, o feminino antes, como em “amigas e amigos”, “alunas e alunos”.

 

Nesses casos, as fórmulas também se aplicam mais à linguagem escrita, já que oralmente produzem uma formalidade e ecos nem sempre possíveis de serem adotados.

 

OUTROS SISTEMAS E POSSIBILIDADES

 

Alguns manuais já foram produzidos no Brasil e em vários outros países, como na própria França, cujas orientações são de 2015. O nosso primeiro e talvez mais importante guia é anterior: foi elaborado em 2014, pela Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, do Governo do Rio Grande do Sul.

 

Apenas para citar algumas alternativas possíveis apontadas nesses guias, veja estes recursos para a elaboração de textos em linguagem inclusiva:

 

  • mudar a estrutura das frases – ao invés de “os brasileiros enfrentam uma crise generalizada”, pode-se dizer “o Brasil enfrenta uma crise generalizada;

 

  • usar termos como “pessoa”, “indivíduo”, “sujeito”, “gente”, “população”, etc. – por exemplo, ao invés de “todos os presentes concordaram”, usar “todas as pessoas presentes concordaram”;

 

  • evitar o uso de pronomes ou artigos que enfatizam gênero e que muitas vezes são desnecessários – em vez de “a Maria leu seu livro” ou “o João fez a lição” pode-se diminuir o caráter binário na linguagem dizendo apenas “Maria leu…” ou “João fez…”. Outro exemplo: em vez de “este livro é do João”, usar “este livro é de João” (forma mais natural no Nordeste brasileiro).

 

POLÊMICA

 

O principal ponto polêmico é a dificuldade de adotar alguns dos sistemas mencionados anteriormente.

 

Na França, este foi o detonador da discussão, já que a gramática alternativa não sexista requer uma série de adaptações bastante complexas na língua francesa. Se em português basta substituir uma vogal por símbolos ou outras letras, em francês as saídas não são tão simples assim. Isso porque as formas femininas e masculinas são bem diferentes e, pior, o idioma nem possui formas femininas para cargos públicos, por exemplo!!!

 

Mas o principal ponto talvez seja mesmo o hábito. “Para que se dar a todo este trabalho?”, perguntam os mais conservadores – quando perguntam!

 

DOIS PONTOS DE VISTA, PARA REFLETIR

 

Seguem duas posições opostas, de dois importantes linguistas:

 

“O pensamento se modela graças à palavra (…) Só existe o que tem nome”, Maria Angeles Calero

 

“[O uso de gêneros binários e da generalização que privilegia o masculino] não é uma mera atitude que possamos mudar de acordo com nossa vontade; trata-se, isso sim, da maneira como a língua se estruturou ao longo de sua formação, e não vai ser alterada pela decisão de um grupo, por mais numeroso que seja.” Cláudio Moreno

 

A NOSSA POSIÇÃO?

 

Sem dúvida, a primeira. Reforça em nós esta convicção o ditado que diz: “a língua é o único instrumento que se afia com o uso”.

 

E você? O que pensa?

 

Escreve pra gente: contato@entretexto.com

 

Para saber mais:

Manual para o uso não sexista da linguagem – clique aqui

 

Todxs contra x língua: os problemas e as soluções do uso dx linguagem neutrx – reportagem Jornal Nexo – clique aqui

 

Imagem do post: Danil Chetverikov

 

 

Iana Ferreira

Iana Ferreira

Formada em Musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes e em Psicologia pela Universidade de São Paulo, onde também fez seu mestrado, escreve (às escondidas) desde pequena. É tão apaixonada pela palavra, escrita ou falada, que escolheu como profissão aquela que a deixaria passar os dias ouvindo histórias.
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