Beauvoir foi uma das vozes mais atuantes do feminismo e uma das maiores pensadoras da filosofia existencialista e da política do século XX. Conhecida em especial por sua obra nessas áreas, lançou em 1967, pouco antes de completar 60 anos de idade, uma deliciosa obra literária, intitulada A Mulher Desiludida, um livro de contos, tão atual hoje quanto há 40 anos.

Nele, a escritora deu voz a universos ficcionais íntimos da realidade de três diferentes mulheres. O livro abre com o conto A idade da discrição, que trata de uma acadêmica e escritora que entra na terceira idade. Já Monólogo tem como matéria-prima o fluxo de consciência de uma mulher perturbada pelo divórcio. O conto que carrega o nome do livro é o mais longo e narra através da intimidade de um diário a vida conjugal de Monique, uma mulher de 44 anos que tenta vivenciar uma relação aberta com o marido.

A Mulher Desiludida retrata tanto as experiências pessoais de Beauvoir quanto os relatos que ouviu e o que viu da intimidade das mulheres de sua época. São histórias que nos presenteiam com uma surpreendente beleza literária. Atual, tendo-se em mente que ser livre não é uma questão tão simples diante da rigidez das convivências sociais e dos papéis pré-estabelecidos, vale mergulhar no universo dessa autora que viveu ao máximo o que pregava. Contra papéis e convenções impostas, por exemplo, disse ela um dia: “Meus filhos são os meus livros”. Que Beauvoir continue inspirando mulheres, e também homens, para melhores experiências de vida.

 

“(…)

Fui à feira. De ordinário, flano muito tempo nessa rua cheia de odores, de ruídos e de risos. Tento inventar desejos tão variados como os frutos, os legumes, os queijos, os patês, os peixes dessas bancas. Comprei braçadas de outono no vendedor de flores. Hoje, meus gestos eram mecânicos. Ativamente enchi meu cesto. Sentimento que eu jamais experimentara: a alegria dos outros me pesava.

Durante o almoço, disse a Maurice:

— Nós não falamos, em suma. Não sei nada sobre Noellie.

— Mas sim, eu já disse o essencial.

É verdade que ele me falou dela no Club 46: eu lastimo ter escutado tão mal.

— Não compreendo muito bem o que você encontra de especial nela: existem tantas mulheres igualmente bonitas.

Refletiu:

— Ela tem uma qualidade que lhe deveria agradar: um modo de se dedicar a fundo a tudo o que faz.

— Eu sei que ela é ambiciosa.

— É outra coisa que ambição.

Ele parou, embaraçado sem dúvida por fazer diante de mim o elogio de Noellie. É preciso dizer que eu não devia ter um ar muito encorajador.

TERÇA-FEIRA 5 DE OUTUBRO

Eu passo um pouco de tempo demais em casa de Colette depois que ela sarou. Malgrado sua grande gentileza, sinto que minha solicitude corre o risco de importuná-la. Quando se viveu de tal maneira para os outros, é um pouco difícil de se converter em viver para si. Não cair nas armadilhas da dedicação: eu sei muito bem que as palavras dar e receber são introcáveis e como eu tinha necessidade da necessidade que minhas filhas tinham de mim. Nesse sentido eu nunca blefei. ‘Você é maravilhosa’, me dizia Maurice. — Ele me dizia tão freqüentemente, sob um outro pretexto — ‘Porque para você dar prazer aos outros, é antes dar prazer a você mesma.’ Eu ria: ‘Sim, é uma forma de egoísmo.’ Aquela ternura em seus olhos: ‘A mais deliciosa que existe.'”

 

TRECHO DE A mulher desiludida, Ed. Nova Fronteira, pg. 144-5

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