Primeira sexta-feira de julho, férias para muitos. Julho que é mês de FLIP, de festa internacional de livros em Paraty! Tem como não amar? E este ano a festa presta uma justa homenagem a Lima Barreto. Ora, ora, ora, então, não podia ser diferente: café e livros hoje só poderia ser com esta biografia extraordinária, escrita pela Lilia Schwarcz.

 

E biografia é o tipo de livro que costuma me capturar completamente.

 


Pois Lima Barreto – triste visionário é, num primeiro olhar, um livro “pesado” – 648 páginas, contando-se notas e índices, com letras minúsculas, embora com imagens também, e uma história rica em detalhes, fruto de pesquisa minuciosa. Mas, fazer o quê? Enquanto penso que não darei conta, que é impossível deitar na cama, no parque ou no jardim equilibrando esse calhamaço, já estou passando no caixa, feliz da vida.

 


Minutos depois devoro aqui e agora, ainda no café da livraria, o capítulo da introdução, esquecendo-me várias vezes do expresso quentinho sobre a mesa. Não dava para esperar chegar em casa, muito menos esperar a noite ou a manhã de sábado para ler. Se biografias capturam, esta aqui sequestra, abduz, seduz por completo. Com toda leveza. Lilia nos transporta para o Rio de Janeiro do final do século retrasado, começo do passado. E nos leva para o ambiente interno, as ambiguidades, conflitos, emoções, sustos, surpresas e enormes batalhas deste homem negro, escritor, militante e atualíssimo, verdadeiro cidadão do século XXI.

 


Leio no final da introdução:

 


“A vida e obra desse escritor representam, portanto, um convite e um aceno. Lima nos incita a transgredir a fronteira do passado, atuando como um guia inesperado. Um timoneiro que não abre mão de incluir em sua obra
suas batalhas, idiossincrasias, brincadeiras, afetos e broncas. Um narrador que nunca se apaga diante do que acredita ser seu e de direito. Ele que brigou, insurgiu-se, apoiou, vetou, enfim, fez todo o barulho que podia para que a República se tornasse uma res publica: o governo de todos para todos, e por todos. Outro Brasil, que é o mesmo também. Aquele dos despossuídos; de alma grande como ‘seu’ Manuel Cabinda, e que carregam uma dor maior que o mundo mas que jamais se deixam, simplesmente, apanhar ou vencer. Ao contrário, lutam sem cessar.
Esta introdução é assim dedicada a Lima Barreto, numa atitude semelhante à que ele tomava. Antes de iniciar suas crônicas e livros, lembrava sempre de um amigo ou de uma pessoa que o inspirara e o animara a continuar escrevendo.
Certa vez, ele registrou que ‘não se separavam bem as pessoas e cousas’, e que qualquer vida é feita de ‘muitas vidas e muitas existências’. Pois bem, esta não é A história de Lima Barreto. Aliás, nem o próprio Lima cabe numa história. Esta é a minha história, aquela que aprendi com ele” (p. 19).

 

Que deleite! Um prenúncio de que a FLIP será incrível, sob as bênçãos e inspiração desse grande batalhador visonário e de suas mil histórias tão atuais. Estaremos lá.

 
 

Lima Barreto – triste visionário, Lilia Moritz Schwarcz, Cia. das Letras, 2017.

 
 

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