Da peça Gota D’Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, dois belíssimos trechos, tão atuais hoje quanto na época em que foram escritos e encenados pela primeira vez (1975):
Gota D’Água, a tragédia, é uma reflexão sobre esse movimento que se operou no interior da sociedade, encurralando as classes subalternas. É uma reflexão insuficiente, simplificadora, ainda perplexa, não tão substantiva quanto é necessário, pois o quadro é muito complexo e só agora emerge das sombras do processo social para se constituir no traço dominante do perfil da vida brasileira atual. De tão significativo, o quadro está a exigir a atenção das melhores energias da cultura brasileira; necessita não de uma peça, mas de uma dramaturgia inteira. Procuramos, pelo menos, diante de todas as limitações. olhar a tragédia de frente, enfrentar a sua concretude, não escamotear a complexidade da situação com a adjetivação raivosa e vã.”
Do Prefácio, escrito por Paulo Pontes.
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XULÉ
Falhei de novo a prestação da casa…  Mas, pela minha contabilidade,  pagando ou não, a gente sempre atrasa
Veja: o preço do cafofo era três
Três milhas já paguei, quer que comprove?
Olha os recibos: cem contos por mês
E agora inda me faltam pagar nove  Com nove fora, juros, dividendo,  mais correção, taxa e ziriguidum, se eu pago os nove que inda estou devendo,  vou acabar devendo oitenta e um…
Que matemática filha-da-puta
EGEU
Todo mundo está igual a você
XULÉ
Não dá. É todo mês a mesma luta  Tem que falar pro homem resolver baixar um pouco essa mensalidade, senão vou morar debaixo da ponte  Não é fácil, mestre Egeu…
EGEU
É verdade
XULÉ
Alguém tem que falar com seu Creonte
A gente vive nessa divisão Se subtrai, se multiplica, soma, no fim, ou come ou paga a prestação O que posso fazer, mestre Egeu?…
EGEU
Coma
XULÉ
Como…
Imagem: uma das montagens de Gota D’Água, fotografia de Annelize Tozetto
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