Criar, contar, escrever, contar… – processos criativos com as palavras II

Criar, contar, escrever, contar… – processos criativos com as palavras II

Olá, amigos.

 

Uma pausa na semana para este assunto prazeroso, que envolve a arte, a literatura, e, em especial, a criação com as palavras!?

 

Como prometido, cá estou compartilhando trechos dessas obras que nos foram presenteadas (foto ao lado) sobre a criação literária. Segui lendo o Palavra por palavra, da Anne Lamott, já que também é do meu grande interesse escrever, desenvolver a relação com a escrita, dar alguns novos passos nesse labor, e essa autora faz seu texto de forma leve e bem-humorada. Vamos juntos mais um pouco!?

 

Depois do incentivo para simplesmente “começarmos!” (ver o que foi publicado sobre o primeiro capítulo clicando AQUI), Anne Lamontt compartilha com os leitores seus momentos de profunda dificuldade e quase desespero com o processo de dar vazão aos textos. Ela fala dos entraves na produção, da criação instável e descontrolada, das exigências excessivas, bloqueios e também descreve os momentos de bonança…

 

Avancemos, porque ao final desse trecho do livro, a autora nos enche de esperanças ao dizer que vai nos apresentar “as duas coisas mais úteis (…) sobre a arte de escrever”. São os próximos dois capítulos do livro.

 

Seguem-se a ideia central e alguns trechos do capítulo 2, intitulado “Pequenas tarefas”.

 

Com humor, Anne diz:

 

“O primeiro conceito é o das pequenas tarefas. Muitas vezes, quando você se senta para escrever, tem em mente um romance autobiográfico sobre a sua infância, uma peça sobre a experiência da imigração ou uma história sobre mulheres. Mas isso é como tentar escalar uma geleira. É difícil saber onde pôr os pés, e as pontas dos dedos ficam vermelhas, congeladas e feridas. Então, suas doenças mentais chegam à escrivaninha como se fossem seus parentes mais perturbados. Puxam as cadeiras, formam um semicírculo em volta do computador e tentam ficar em silêncio, mas você sabe que elas estão ali, com sua respiração ofegante, espiando-o pelas costas.

 

Nesse momento, quando o pânico aumenta (…), paro. Primeiro, tento respirar, porque, sem que eu note, estou ofegando como um cão ou resfolegando como um asmático. Então, fico sentada por um minuto, respirando lenta e silenciosamente.”

 

Segundo Anne, logo a mente se enche de pensamentos, como contas a pagar, questões pessoais, assuntos de todas as naturezas, alguns extremamente desimportantes. Ela segue, afirmando mais adiante:

 

“E. L. Doctorow uma vez disse que ‘escrever é como dirigir um carro à noite: você só consegue enxergar até onde a luz dos faróis alcança, mas pode fazer a viagem inteira assim’. Você não precisa ver aonde está indo, não precisa ver seu destino nem tudo o que encontrará pelo caminho. Você só precisa enxergar alguns metros à sua frente. Este é um dos melhores conselhos sobre escrita – ou sobre a vida – que já ouvi.”

 

Vendo à sua frente na escrivaninha um pequeno porta-retratos de três centímetros de lado, onde deixa registradas pequenas tarefas de escrita – um porta-retratos de 3 x 3! –, ela segue descrevendo o que lhe acontece e compartilhando reflexões sobre a empreitada de escrever:

 

“Após me exaurir pensando nas pessoas que mais me magoaram, nos meus maiores problemas financeiros e, é claro, no tratamento ortodôntico, lembro de pegar o porta-retratos e imaginar um pequeno trecho da minha história, uma cena, uma recordação, um diálogo.

 

Isso me recorda uma história que sempre me ajuda a pôr as coisas em perspectiva: há cerca de três décadas, meu irmão mais velho, na época com dez anos, estava tentando escrever um trabalho sobre pássaros. Ele tivera três meses de prazo, mas deixara para a última hora e o trabalho precisava ser entregue no dia seguinte. Ele estava quase chorando sentado à mesa da cozinha, cercado por folhas, lápis e livros sobre pássaros, paralisado pela enormidade da tarefa à sua frente. Então, meu pai se sentou ao lado dele, passou o braço em volta de seu ombro e disse: ‘Um pássaro de cada vez, meu filho. Escreva sobre um pássaro de cada vez’.”

 

Não bastasse este trecho tão cheio de delicada beleza, Anne Lamott termina o capítulo com uma afirmação que pode ser uma daquelas revelações essenciais, que precisamos para seguir nos relacionando adequadamente e vendo com clareza a tarefa a que nos propomos:

 

“Escrever pode ser uma empreitada bastante trágica, porque se trata de uma das nossas necessidades mais profundas: a de ser visto e ouvido, de dar sentido à nossa vida, de despertar, crescer e pertencer. Não é de espantar que algumas vezes tenhamos a tendência de nos levar um pouco a sério demais.”

 

Então, sua dica preciosa a respeito de “pequenas tarefas” é:

 

“Diga a si mesmo da maneira mais gentil possível: ‘Tudo o que farei agora é uma descrição de um rio ao nascer do sol, de uma criança pequena nadando na piscina do clube ou da primeira vez que um homem vê a mulher com quem vai se casar. É tudo o que farei por enquanto. Vou escrever sobre um pássaro de cada vez. Mas vou terminar esta única e pequena tarefa’.”

 

 

Vamos seguir!?

 

 

Semana que vem, compartilharemos o terceiro capítulo, que contém “a segunda coisa mais útil sobre a arte de escrever”. O título? Surpresa. Que tal ir começando e colocando em prática pequenas tarefas?

 

Abraços. E até breve.

 

Palavra por palavra, instruções sobre escrever e viver, Anne Lamott, Editora Sextante, 2011.

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