Artigo para o Jornal d’Aqui, junho de 2021

 

Você consegue imaginar uma coisa assim, uma sociedade que tenha abolido ou cancelado as emoções? Imaginar penso que até conseguimos, não? Pra mim vem a imagem de uma sociedade de máquinas, seres humanos automatizados, robóticos, olhares vazios e perdidos no horizonte, comportamentos padronizados etc. uma completa distopia bastante assustadora.

 

Mas e se alguém afirmar que essa sociedade é a nossa, que a nossa sociedade cancelou as emoções? “Absurdo, claro que não”, você pode afirmar enfaticamente nesse momento. “Não somos essa sociedade de ficção científica.”

 

Vamos pensar juntas(os) a respeito?

 

Veja: será que não somos constantemente convidadas(os) a produzir como robôs, independente do nosso cansaço, prazer ou realização com as atividades que precisamos fazer? Será que nossa validação como integrantes dessa sociedade não está quase que completamente alicerçada em fatores como performance, sucesso, status, conquistas materiais ou outras que seguem padrões impostos de forma massiva? Diversidade e a realização das individualidades não são coisas um tanto fora do horizonte e das metas dessa sociedade? Ao acordar, será que não levamos muito mais em conta o que temos que fazer, tarefas a realizar, do que aquilo que somos ou o que estamos sentindo?

 

Em parte você tem razão em pensar que “absurdo, claro que a nossa sociedade não cancelou as emoções. Ficamos felizes, com raiva, tristes etc. etc.” É… em parte essa sociedade não cancelou as emoções. Talvez porque simplesmente não tenha conseguido ainda. Mas uma coisa é certa: há uma tentativa estranha de selecionar emoções, permitindo tão somente o que pode combinar com uma casca de aparente excelência.

 

Então, estão permitidas manifestações de alegria e felicidade, de preferência nas suas formas eufóricas. Raiva em muitos casos também pode, afinal, é sinal de poder, competência e força no jogo competitivo dessa sociedade. Amor aparentemente também cabe, olhem só, mas claro que na sua forma superficial, o amor romântico, a sedução, o amor um tanto egoísta, autocentrado. Nada de amor mais elevado, aquele amor verdadeiro mesmo, transformativo. Desse, bom… meio difícil, nos faltam até exemplos. E amor altruísta, então, normalmente parece tolo e fica para os religiosos.

 

Se você está lendo esse artigo até aqui, se está interessada(o) no tema, é quase certo que possa estar dizendo, com toda razão: “Bom, mas eu tenho o privilégio de não fazer parte disso, pelo menos não totalmente. Dou valor ao meu mundo de emoções e sentimentos e tenho pessoas à minha volta que fazem o mesmo”.

 

Isso é maravilhoso e que bom que é verdadeiro para muitas pessoas. Mas ainda que seja este o caso, temos um desafio. Continua tendo pouco espaço lidar com emoções quando o que nos rodeia nos cobra de forma tão impositiva coisas como objetividade, exterioridade e performance. É desafiador entrar em emoções como tristeza e medo, em sofrimentos antigos ou novos, em memórias dolorosas, em partes da história que nos machucam ou olhar para aquilo que nos falta. É complicado viver processos de luto, despedida e perdas. E fazer contato com sentimentos profundos e pouco conhecidos parece irrelevante e absurdamente tolo, uma perda de tempo. Quantas vezes não “engolimos o choro”. Vez ou outra, tudo bem. Sempre, adoece. E adoece gravemente.

 

Então, se fazemos parte de um meio não tão endurecido pelas exigências de uma vida puramente material, concreta e objetiva, que ótimo. Mas é importante reconhecer que ventos contrários sopram constantemente e nos influenciam também.

 

Escrevo isso pensando em quantas pessoas chegam muito bem intencionadas à terapia, mas que encontram diversas resistências em fazer contato com histórias antigas, afetos guardados e toda sorte de efeitos que isso provoca no momento atual. Quantas e quantas vezes é difícil até mesmo acreditar que emoções e sentimentos, especialmente os que parecem mais infantis, consigam estabelecer tantas coisas na nossa vida quanto nossa objetividade, raciocínio e capacidade de planejar. Como é complicado reconhecer que afetos e experiências que ficaram para trás cronologicamente ainda conseguem produzir efeitos hoje.

 

Pois produzem. E, aliás, produzem muito mais do que qualquer outra capacidade nossa, ainda mais quando brigamos com eles, negamos ou não os conhecemos a fundo. Esse é o inacreditável poder desse mundo interno de emoções e sentimentos, mas que essa estranha sociedade tentou cancelar ou aprisionar. Nós, muitas vezes, fazemos o mesmo.

 

A boa notícia é que às vezes basta estar atenta(o) para não cair na armadilha. Vale resistir.

 
 

Imagem: detalhe da obra Operários, de Tarsila do Amaral

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