Recém-saída ou ainda saindo do clima da Páscoa, fico me perguntando o que é isso que toma uma pessoa não católica como eu e me envolve nesses festejos e celebrações de uma religião que não é a minha. De fato, é quase involuntário mergulhar em tais comemorações, independente da religião pessoal, como muita gente também o faz. Olhando em volta quem não vê muitas outras pessoas, cristãs, budistas, talvez evangélicas e até ateias, sendo tocadas de uma forma ou de outra por essas festas coletivas? Há quem, mesmo estando bem distante de uma fé religiosa, faça promessas durante a quaresma, se revigore na Páscoa ou ao menos celebre o Natal e pule seus carnavais.

 

Eu particularmente gosto da reunião de pessoas nessas ocasiões. Gosto especialmente dos ritos, das histórias e temas que permeiam essas épocas, de viver os símbolos e a revigoração dos sentidos que vêm com elas, ainda que essas coisas estejam bem diluídas nos dias de hoje, com a apropriação das datas feita pelo comércio e sua necessidade incessante de vender.

 

E aqui chegamos aos dois pontos principais da questão.

 

O primeiro é que a verdadeira força dessas celebrações vem da necessidade humana de assinalar ciclos, marcar e lembrar sentidos, renovar disposições, conectar-se a qualidades e potências representadas nas diferentes épocas, ciclos da natureza e festas anuais. E isso não precisa estar necessariamente ligado a uma fé, religião ou espiritualidade.

 

Aliás, na sua origem, esses festejos nem sequer eram religiosos. Antigamente se festejava a colheita, a cumeeira da casa, o ápice da luminosidade ou da escuridão; mulheres e homens se sentavam em roda para debulhar milho, ralar, cozinhar; faziam-se fogueiras, guardavam-se as cinzas dos ramos e inúmeros outros ritos, que marcavam pontos importantes num caminhar realizado em ciclos. Tudo isso eram festas pagãs, que com o tempo foram primeiro tomadas pela igreja e transformadas em cultos e ritos próprios.

 

Neste percurso, no entanto, as festas – na verdade, seus sentidos – foram-se perdendo. E o resultado disso é que nós, seres humanos modernos, vamos nos perdendo em vidas esvaziadas de sentido, o segundo aspecto da questão.

 

E por que nos perdemos? Uma parte da resposta é porque sem ritos, celebrações, iniciações perdem-se lembranças de um saber que não é o do tempo cotidiano nem das coisas rotineiras, um saber mais profundo, fértil de sabedoria sobre a vida. Sem ritos, celebrações, iniciações também ficamos órfãos de uma coletividade, ficamos mais e mais isolados e desamparados em nosso individualismo moderno. Resumidamente, isso já é suficiente para apontar para a origem dos grandes desastres que vemos por aí.

 

Festejar as épocas, ciclos ou momentos especiais do ano – ainda que isso tenha assumido uma forma distorcida ou que tenha sido invadido pelo frenesi atual do consumo, que tenta em vão preencher um vazio existencial – é uma ação  humana fundamental, que sobrevive como resquício das tradições que fomentavam o equilíbrio da vida interior, a conexão entre as pessoas e a saúde física, emocional, psíquica etc., tanto individual quanto coletiva.

 

O trabalho possível é resgatar essa profundidade e, portanto, reencontrar a sabedoria e a força interior requeridas no enfrentamento dos desafios do mundo. E isso é realmente algo possível.

 

Se depois da Páscoa já avistamos a celebração das mães, fogueiras juninas e assim por diante, que tal começarmos o movimento inverso agora? Por que não reintroduzir nos cultos de consumo e no frenesi das compras a força simbólica dessas celebrações? Nutrir este olhar para dentro em pleno recolhimento do outono, gestar esse processo na comemoração das Mães e/ou iluminar e aquecer esses aspectos da vida humana ao acender nossas fogueiras no São João certamente podem tornar esses momentos o que são: ocasiões especiais férteis e preenchidas de sentidos.

 

Então, bons próximos festejos e celebrações!

 
 

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