Artigo para o Site da Granja, março de 2021
 

Seguimos falando de ansiedade, tema que anda, mais do que nunca, entrando em nossas vidas “porta” adentro sem cerimônia e sem pedir licença.
 

Costumo escolher para os artigos aqueles assuntos que vão se destacando no consultório, aquilo que aparece com mais frequência. E não é que, de repente, estamos aqui pelo terceiro mês seguido falando de ansiedade?* Algo que parece pedir atenção realmente. Mais do que nunca.
 

Recapitulando brevemente, algum nível de ansiedade pode se apresentar vez ou outra, sem que precise de cuidados especiais. É o que aparece naquelas situações novas que vivemos, nas mais complexas, nas desconhecidas, que eventualmente ativam um certo estado de alerta, inquietude, às vezes de aceleração, relativamente perturbador, claro, mas que guarda proporção com a situação vivida e cede passado algum tempo.
 

Toda a questão fica em saber se o que sentimos está cruzando a linha do aceitável ou não, se é algo que pode de fato estar ali ou se deveria ser despachado pra bem longe. Será que a palpitação na hora da prova, do encontro especial, da fala em público, da viagem, das mudanças é okei? E o que dizer da sudorese, do branco, do enjoo, do desconforto psíquico? É preciso seguir assim ou há algo de “errado” comigo?
 

Em geral, a gente tenta, tenta seguir, tenta novamente. Mas quantas vezes a pergunta não se reapresenta, não é? “Será que é assim mesmo?” “Ou será que há algo de errado?”
 

Então, vejamos: sempre que a vida perde qualidade, temos sinais de que alguma coisa não está tão bem quanto poderia estar. É como a febre que avisa de uma inflamação, como uma dor que conta que algo saiu do lugar ou não está funcionando conforme o esperado, como a prostração que diz que algum tipo de esgotamento, físico ou mental, aconteceu. Portanto, é importante entender o sinal: se não está tranquilo, bom não está. Sem dúvida, poderia estar melhor. Os sinais estão aí pra dizer “preste atenção, há algo aqui pra você cuidar”.
 

No entanto, é quando a coisa realmente emperra ou fica numa repetição tipo disco arranhado – sabe aquelas experiências que só se repetem sem que você consiga fazer nada de diferente nem progredir? –, nessas situações é que, bom, será que você precisa realmente seguir assim, cheia(o) de amarras ou com a agulha pulando no mesmo ponto da música? Melhor parar e tirar os obstáculos do caminho, não?
 

Se não estamos identificadas(os) com a ansiedade, como se ela fosse parte inerente da vida ou de nós, é o que iremos fazer. Normalmente ninguém fica com febre ou dor ou prostrado pensando é assim mesmo. Até toleramos um pouco, dando chance para que o equilíbrio venha naturalmente. Mas diante da constância, da repetição e das perturbações que um estado ruim pode nos causar, tomamos providências.
 

Então, olhe bem se uma dessas coisas a seguir anda constante, repetitiva e perturbadora pra você e reconheça o que elas podem ser de fato.
 

Manifestações da ansiedade: preocupações excessivas e constantes, às vezes com pensamentos catastróficos, que não guardam relação com situações reais e suas consequências, temor em relação a certos temas ou situações sem motivos plausíveis, dependências diversas ou maus hábitos persistentes, crises existenciais e sensação de vazio que não se resolvem, sintomas físicos, como sudorese, náusea, taquicardia, dor no peito, falta de ar ou hiperventilação, insônia e inquietação.
 

Aí está uma listinha que pode ajudar.
 

A principal dica, no entanto, é: algo assim compromete suas atividades, suas funções, seu dia a dia, aquilo que você gostaria de viver, sua vida, portanto? Em caso positivo, cuide. A ansiedade e seu time de reforçadores – medo, insegurança, baixa autoestima, crenças negativas irrealistas – vão se insinuando e entrando às vezes de forma silenciosa em nossa vida. Nós nos acostumamos com eles como se sempre estivessem estado ali e não pudessem nos deixar em paz. Não é verdade.
 

E é bem possível usar seus sinais a nosso favor. Nesse caso, deixamos de ter um inimigo bem instalado em nossa sala de estar perturbando a nossa vida e nos valemos de seus sinais para restabelecer algo de bom que foi perdido. Hora de cuidar e de recuperar o fluxo da vida. É possível e vale muito a pena.
 

Para as(os) nascidas(os) antes de 1970, hora de limpar a agulha e o disco e deixar a música voltar a tocar. Sempre melhor com uma boa música. Não?
 

 

* Para ler o artigo de fevereiro, clique AQUI.

 

 

Iana Ferreira
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