Sujeitos e Objetos – Genisson Guimarães

Sujeitos e Objetos – Genisson Guimarães

Quando nascemos, não é verdade dizer que um mundo veio até nós? E que cada qual habita um mundo diferente, de valores e sistemas referenciais próprios? Talvez a maior dificuldade no convívio entre as pessoas seja o exercício da alteridade, o “colocar-se no lugar do outro”, respeitando-o e entendendo que o outro é uma existência que habita um mundo próprio e inacessível em sua profundidade e complexidade. E justo aí reside a singularidade que faz do ser humano um animal infinito em sua beleza e em sua potência, mas também em suas dificuldades e dissabores, em especial na relação com o outro.

 

Compartilhamos o mundo externo, esse dos sentidos, palpável, sensível e sofrido, belo e prazeroso; um palco onde desfilamos e nos relacionamos, nos amamos e nos odiamos; um imenso campo de futebol, palco de uma partida para a qual fomos escalados sem pedir e sem direito à substituição, até o dia em que o jogo acaba. Para uns, o final é o fim realmente. Para outros a partida continua em outro estágio evolutivo, em outra dimensão que escapa à nossa compreensão. Alguns dizem que Deus é o árbitro da partida, enquanto outros preferem acreditar que não há regras e não há uma autoridade máxima onisciente e onipresente. Essa discussão é eterna e sem consenso, até o dia em que cada um se encontra com sua verdade ou sua mentira.

 

Mas há um mundo maior dentro de cada um de nós que independe de crenças ou transcendências. E esse mundo é íntimo e inalienável. E o mundo interno é de uma infinitude inexprimível. É em nosso mundo interno que nos encontramos e nos perdemos. É esfera de vida íntima, de contornos e nuances complexos e labirínticos. Fácil de se perder, difícil de se encontrar. É o tempo/espaço do você com você mesmo, quer estejamos sozinhos ou não. E para acessá-lo precisamos de um mínimo de ócio e interiorização. E isso é o que menos temos nos dias atuais.
O mundo interno vem sendo forçosamente negligenciado em prol do mundo externo, seja pelo excesso de horas de trabalho, “lazer” digital ou consumismo. E não sem surpresa as pessoas encontram-se com toda sorte de conflitos interpessoais, sofrimentos psíquicos e adoecimentos mentais.

 

Quando Sócrates proferiu o famoso “Conhece-te a ti mesmo”, com certeza não pensava que esse conhecimento de “si” viria da sujeição.

 

O Ser Humano faz seu próprio clima. Entretanto, a climatização simbólica do espaço comum – produção original de cada sociedade – não se faz a partir de peças soltas, mas a partir de condições previamente encontradas, dadas e transmitidas. Se os homens estão aí, então existem de início em espaços que se abriram para eles porque ao habitá-los deram-lhe forma, conteúdo, extensão e duração relativa (Peter Sloterdijk). E em meio a esse processo contínuo e irrevogável de construção, desconstrução e reconstrução, chegamos a uma sociedade onde a sujeição é a cultura dominante e onde o homem abandonou o protagonismo de sua vida (mesmo achando que é livre e que possui o mundo “na palma da mão”). Deixamos de ser sujeitos para sermos objetos.

 

A relação do homem com o objeto baseia-se no uso da linguagem para que assim possa conhecer o mundo, para impor-se diante dele, ordená-lo, estruturá-lo, vencê-lo, transformá-lo. Esse mundo nada mais é que objeto de uso e experiência. O problema começa quando incluímos o outro humano nessa equação e passamos a tratá-lo também como objeto.

 

Quando vamos em uma farmácia comprar uma medicação e o Ser Humano que ocupa a função de caixa insiste inapropriadamente para que compremos a vitamina X ou uma caixa de Dorflex “na promoção” (a meta de vendas é a prioridade), somos tratados como objetos; quando padecemos de alguma enfermidade e vamos ao médico e esse Ser Humano que estudou e se formou em medicina insiste para que compremos a marca de determinado laboratório (porque esse médico X ganha “incentivos” para a prescrição), somos tratados como objetos; quando os políticos utilizam os poderes do cargo para auferir ganhos através de negociações paralelas com o dinheiro público, somos objetos, meros meios para fins privados. E assim vivemos como se as coisas e os outros fossem apenas o mobiliário funcional de nossa existência. E o resultado é que, no fim das contas, o homem move uma guerra contra a própria estrutura à qual deve sua vida. Não somos sujeitos, somos objetos em uma vida cujas relações humanas reduzem-se cada dia mais a relações de custo x benefício. A relação “eu – tu” é substituída pela relação “eu – isso”.

 

E nesse jogo de sujeição e objetificação, o “fator humano” é deixado de fora. E não se trata de humanismo como idealismo moral; trata-se de um humanismo ontológico, originário, passível de resgate a partir do mundo interno.
A crise que vivemos é uma crise de significados, ou melhor, da ausência deles. Apesar de sermos o único animal consciente da própria finitude, perdemos a capacidade de refletir honestamente sobre o que significa existir e deixar de existir – tomada de consciência que não precisa ocorrer de modo aterrorizador no leito de morte, como sucedido com o personagem Ivan Ilitch (A morte de Ivan Ilitch, Tolstói). E se toda potência de vida (sentir, refletir, agir com ética e temperança) que trazemos em nós continuar voltada para fins utilitários e materiais, o mundo externo continuará a nos esmagar, tal como a Gregor Samsa (A metamorfose, Kafka), que mesmo despertando metamorfoseado num um inseto monstruoso, preocupa-se não com a transformação, mas com o fato de estar atrasado para o trabalho.

 
 
 

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Escreveu "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal, e "A borboleta amarela e o mendigo" (2017). É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
Genisson Angelo Guimarães
5 Comentários
  • Karen Aniz
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    Texto sensacional, Dr. Genisson! Adorei! A mecanicidade da maioria de nossas atividades, bem como a avalanche de pensamentos fragmentados, guiados por propósitos alheios nem sempre legítimos, nos sufocam diariamente e impedem reflexões importantes a respeito de nós mesmos e do nosso papel na continuidade do desenvolvimento humano como um todo. Precisamos urgente de uma reavaliação de prioridades, sob pena de passarmos rapidamente pela vida, sem, pelo menos, nos aproximarmos um pouco da nossa mais profunda razão de existir (individual e coletiva).

    29/09/2018 at 23:41
  • Eunice Satie Uemori
    Responder

    Infelizmente é a dura realidade dos tempos atuais, não existe respeito pelo ser humano, para conquistar ou adquirir o que é nosso por direito, constantemente, temos que nos impor.

    30/09/2018 at 22:15
  • Eunice Satie Uemori
    Responder

    Infelizmente é uma realidade, mesmo pagando precisamos tomar muito cuidado para não sermos enganados, precisamos estar sempre alerta.

    01/10/2018 at 15:18
  • Maria Thereza Prando Milan Lopesk
    Responder

    Muito bom texto, retrata as tendências da atual sociedade, onde o tempo nos engole e nos deixa desconectados com nosso eu interior!

    01/10/2018 at 20:52
  • Genisson Angelo Guimarães
    Genisson Angelo Guimarães
    Responder

    Obrigado pelos comentários! O texto versa acerca da razão instrumental, marca de uma sociedade mercantilista e utilitária onde somos produtos ao mesmo tempo em que transformamos o outro igualmente em produto; mas tal lógica se insere em nossas rotinas de modo sub-reptício e por fim engendramos uma guerra contra a própria estrutura a partir da qual somos formados.

    02/10/2018 at 15:16

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