Sobre o amor garantido – Genisson Guimarães

Sobre o amor garantido – Genisson Guimarães

Quando falamos ou escrevemos sobre o amor, lidamos com a distância intransponível existente entre o sentimento em si e a linguagem utilizada para teorizar acerca dele. Não me refiro às demonstrações de amor, concretudes objetiváveis e apreensíveis a partir de nosso aparato sensorial e psíquico. Por exemplo, quando conhecemos histórias de pessoas que abrem mão de suas confortáveis vidas pessoais e passam a dedicar a própria existência para cuidar de crianças que passam fome do outro lado do mundo, aproximamo-nos do conceito honesto de demonstração de amor, a despeito de permanecermos bem distantes do que realmente significa esse profundo sentimento/sentido existencial para essas pessoas.

 

Mas além das demonstrações de amor, podemos refletir, lançando mão da linguagem, acerca das significativas repercussões e desdobramentos desse inalcançável e profundo sentimento nomeado “amor” em nossa língua vernácula.

 

O amor é amor endereçado a algo (concreto ou abstrato, estático ou dinâmico) ou a alguém (real ou metafísico). Pode-se amar o pai, a mãe, os irmãos, os filhos, a si mesmo; pode-se amar tocar piano, praticar exercícios, o próprio trabalho (formas de amar a si mesmo através de algo); pode-se amar a existência, a humanidade, a natureza, a um Deus.

 

Aprofundando um pouco mais nossa reflexão acerca do significado e dos significantes do amor, percebemos que há amores que são conquistados e amores que são garantidos. O amor romântico do casal é um amor conquistado, nascido do encontro e a partir de uma construção a dois. Mas nunca é garantido. Mas caso esse amor floresça e renda seus frutos, os filhos, podemos falar do amor que mais se aproxima do amor garantido, o amor entre pais e filhos. Mães que passam a madrugada na porta do presídio esperando para visitar o filho que cometeu um crime pode ser um exemplo da força e profundidade de um amor garantido.

 

Agora chego no ponto de cruzamento entre o real (relações familiares) e o metafísico (amor), e cujos conflitos podem se desdobrar em infelicidades e litígios que por vezes perduram até a morte (o melhor juiz da vida).

 

Fala-se a todo momento sobre a necessidade de “regar a planta do amor”; usualmente, versa-se acerca do amor romântico (conquistado), que se não for bem cuidado um dia se acaba. Mas o que pretendo trazer à discussão nesse momento diz respeito ao amor garantido.

 

Se pararmos para observar ao nosso redor (e dentro de nós mesmos), facilmente localizaremos exemplos de relações entre pais e filhos marcadas pela comunicação ruidosa e conflituosa (nem sempre barulhenta e às vezes mais facilmente percebida no silêncio e na submissão do outro). Usualmente a resposta fácil “…nós brigamos o tempo todo, mas o importante é que nos amamos e podemos contar um com o outro, sempre…” põe fim aos conflitos; mas às vezes a mágoa e a ferida silenciosa são de tal proporção que podem redundar em tensão constante e adoecimento.

 

Amor garantido não quer dizer amor que não precisa de cuidado.  O amor é imorredouro e o outro (enquanto estiver vivo) estará lá para você; mas isso não significa que a relação não necessite de cuidado e carinho e possa ser vivenciada entre críticas e queixas constantes, criando um ambiente de desarmonia e falta de respeito. Até o amor garantido pode cansar; mas diferente do amor conquistado, ele nunca diz não. Ele adoece e fenece em silêncio.

 

Avançando em nossa reflexão, além do mal-estar criado entre os dois que se amam, podemos pensar um pouco na repercussão de uma relação ruidosa e baseada na crítica na formação da personalidade das crianças que habitam esses lares. Vamos a um exemplo do cotidiano:

 

Uma família com um pai, uma mãe e três filhos. Todos se amam. Mas o pai tem um temperamento irritado, crítico, sempre tentando impor suas opiniões e vontades dentro de casa (em geral o pai ou mãe dele eram “igualzinho”). A mãe e dois dos filhos, alienados dentro dessa dinâmica, assumem um papel de passividade e se refugiam dentro de si em meio a essa dinâmica opressora. Mas um dos filhos, “puxou o temperamento do pai”. As arrelias e discussões só aumentam à medida que esse filho cresce e vai assumindo o controle da própria vida. A família “acostuma-se” a conviver com os conflitos entre os dois. Esse filho se desenvolve, casa e nasce o primeiro neto. E a dinâmica, nos encontros familiares, continua a mesma. E em meio a tal ambiente passa despercebido que a natureza dessa relação entre pai e filho, fundamentada na crítica e na imposição de opiniões e desejos, irá, em maior ou menor grau (dentro da interação de múltiplos fatores), participar da formação da personalidade desse novo ente familiar (neto) em desenvolvimento (assim como esse filho cresceu nessa dinâmica com esse pai). E assim a roda da vida segue girando…

 

Para concluir, pensemos que concretamente amor é o que acontece no “entre” da relação, seja ele um amor conquistado ou um amor garantido. Mas a vida acelerada e multitarefa que levamos nos rouba a capacidade de refletirmos sobre os aspectos reais do amor, que vão muito além do presente dos dias das mães ou dos pais (muitas vezes comprados como “obrigação” e sem o menor depósito afetivo). Finalizo com uma reflexão de Osho: “… não é o amor que sustenta a relação, mas sim a relação que sustenta o amor…”. Cuidemos com mais carinho de nossas relações; assim o amor estará sempre seguro, seja ele conquistado ou garantido.

 

Ilustração: Pixabay

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Estreou nos livros com "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal. Em 2017 veio "A borboleta amarela e o mendigo", também de contos. É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
2 Comentários
  • JANAINA moraes
    Responder

    Nunca tinha pensado nisso que o Dr. Genisson escreveu…… me fez refletir sobre a relação que tenho com meus pais

    12/08/2018 at 10:32
    • Genisson
      Responder

      Que bom que te tocou, Janaina. Nessa vida acelerada, precisamos exercitar ativamente nossa capacidade de parar, observar em volta e refletir. Obrigado por seu comentário.
      Abraços.

      14/08/2018 at 08:01

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