Recomeço – Genisson Guimarães

Recomeço – Genisson Guimarães

Amanhecera e os sentidos de Clarice despertavam vagarosamente. Seu corpo, encharcado em suor, permanecia imóvel, afundado no colchão velho da sala do minúsculo apartamento de Helena, amiga de Virgínia.

 

Os começos difíceis eram como vidros mastigados e deglutidos a seco, dias de calor e frio, de fome e sede. Em sua fraqueza juvenil uma chorosa vontade de voltar, logo escamoteada pelo ardor do desejo de um futuro diferente. Uma certeza íntima, enraizada em seu cerne, oferecia-lhe uma verdade robusta e irredutível, um caminho aberto, cercado de reprimendas e dissabores, mas ainda assim um caminho à espera de seus passos. Era ela, apenas ela, na cidade e no mundo. E era assim que desejava, como se deseja uma ferramenta difícil para esculpir a obra escondida sob a pedra dura e fechada.

 

Um pequeno trabalho diurno de babá, algum dinheiro semanal, a leitura e o estudo à noite. Desenhou-se uma rotina, um mínimo e possível ancoradouro para a amplidão de movimentos destinados ao mundo. Dormia tarde com facilidade, a avidez e a voracidade no comando; acordava cedo com dificuldade, entorpecida pelo cansaço mal recuperado do dia anterior. Às vezes, assaltava-lhe o espírito um medo indefinido, mas robusto e atroz. Subia-lhe um tremor frio pelo corpo, o coração disparava. Nessas horas, sentava-se em algum lugar reservado, abraçava as pernas, encolhia a cabeça e chorava até a secura das lágrimas. E então ela era um pouco mais outra, mais ressecada e de emoções mais endurecidas. E era essa força crescente que a guiava sem tortuosidades, em um esculpir silencioso e atento.

 

Já andava há seis meses na cidade grande quando escreveu uma carta para a mãe, sem remetente. Tranquilizou-a, estava bem, cada dia melhor. Um dia você vem me visitar. Um dia terei meu lugar. Para o pai, o silêncio. Tentava ignorá-lo, culpava-o por tudo: por sua infelicidade, por sua necessidade de fuga, pela morte de seu irmão, André.

 

Seu irmão morto. Era-lhe difícil pronunciar essas palavras, como se um arame farpado fosse arrancado de sua garganta. Seu irmão, três anos mais velho, seu ídolo, seu amigo, morto. O amor entre os irmãos era compreensivo e livre. Sem bordas, perdia-se na infinita cumplicidade entre os dois. Quando recebeu a notícia do acidente que vitimou o único irmão, de imediato o mundo exterior assumiu uma nova configuração, abandonando-a aos mistérios de si mesma. As verdades derreteram, as paisagens sumiram. O sol brilhava tal qual uma lamparina bruxuleante e a escuridão assumira todos os tons de sua nova existência. A alegria fácil de outrora não passava de lembrança distante e sem sabor. Junto com o irmão, Clarice enterrou o mundo e voltou-se unicamente para as verdades que a habitavam, dispensando assim as representações que vinham de fora.

 

Com um esforço súbito, de uma vez só, descolou-se do colchão com brutalidade e sentou-se, buscando estabilizar o tronco que pendia para os lados, ameaçando desabar. Recobrando a lucidez, ocorreu-lhe que no dia seguinte mudaria de moradia, já capaz de pagar o aluguel de um quarto com uma cama e um banheiro. Esse pensamento forneceu-lhe a energia necessária para levantar-se de vez e iniciar mais um dia.

 

(continua em breve)

 

Imagem: iStock – SDominick

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, futuro filósofo oficialmente formado e médico psiquiatra. Iniciou a carreira de escritor com a publicação de Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad, na Espanha, no ano de 2014, publicado em 2015 no Brasil e em Portugal pela editora Chiado. É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
Genisson Angelo Guimarães

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1 Comentário
  • Eunice
    Responder

    Adorei! Aguardando as novas conquistas da Clarice.

    dezembro 2, 2017 at 7:29 pm

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