Por que participei do LAB10 – Toni Somlo

Por que participei do LAB10 – Toni Somlo

Como em todas as propostas dadas [no LAB10], passei um bom tempo pensando nelas antes de me decidir a escrever. Algumas vezes, mudei de ideia na hora de começar. E desta vez não foi diferente.

 

Fiquei sabendo desta oficina através de uma amiga, então fui pesquisar no site. Resolvi participar como um desafio, enfrentar uma coisa nova, assumir um compromisso semanal, sem saber exatamente o que me esperava. E gostei!

 

Na verdade, achei difícil por dois motivos: sou bastante fechada e tenho dificuldade para falar de mim mesma. Por outro lado, não sou criativa o suficiente para criar histórias. Como já disse por aqui, tenho facilidade para escrever, talvez por sempre ter lido muito, mas nunca tive nem tenho pretensão a escritora.

 

Gostei também de remexer nas minhas lembranças, coisas esquecidas e que de repente surgiram do nada. E hoje também foi assim: me peguei pensando na vida dos meus pais, ambos já falecidos. Acho que foram muito corajosos e explico por que:

 

Nasceram ambos em Budapeste no entre guerras. Minha mãe perdeu o pai aos dezoito anos e não se dava com a mãe. Meu pai ficou órfão aos quatorze e dependeu do irmão sete anos mais velho, até atingir a maioridade. Era uma família rica e meu pai, de posse da herança, largou a faculdade e foi aproveitar a vida. Foi aí que conheceu minha mãe e acabaram se casando. Ambos de família judia não religiosa, passaram a segunda guerra em Budapeste, fugindo de um lado para outro (eu já era nascida) e sobreviveram.

 

Terminada a guerra, começaram a refazer a vida e de repente, sob o domínio dos russos, a Hungria virou comunista e começou a perseguição a quem não se sujeitasse ao partido. Conseguiram escapar, já com duas filhas (de um e seis anos) e se estabeleceram em Viena, aguardando um visto para vir para o Brasil. Passados dois anos, finalmente o visto chegou e viemos para São Paulo. Mais um recomeço.

 

A vida é feita de vários ciclos (há quem diga que cada ciclo tem sete anos) e na minha família não foi diferente. Alguns altos e baixos, mas no geral mais altos do que baixos. Não só eles tiveram uma boa vida mas nós, as filhas, também. Meu pai faleceu aos 78 anos, já bastante esclerosado, um ano após comemorarem Bodas de Ouro com uma bela festa. Minha mãe viveu até os 97 anos mas, infelizmente, os últimos dez sofrendo do mal de Alzheimer.

 

Se eu gosto tanto de ler, de arte e principalmente de música – tanto clássica quanto popular – foi por influência deles. Foi o maior legado que me deixaram, além da capacidade de não esmorecer diante das dificuldades.

 

E muitas vezes me ocorreu como teria sido a minha vida se eles não tivessem tido a coragem de emigrar e deixar tudo para trás. Que bom que assim foi!

 

Foto: Toni Somlo

 

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Toni Somlo, 75, é leitora assídua, desde a infância. Gosta de boa literatura, romance com fundo histórico, qualquer livro bem escrito. Escreve quando necessário, seja para o jornal do qual é editora, seja para amigos, seja revisando textos antes de publicá-los. Ultimamente andou escrevendo sua própria história, a pedido da filha. Gosta de escrever mas não de se expor. Por isso, o Lab10 foi um desafio.

Toni é editora do Jornal d’Aqui (Cotia, SP)

 

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De agosto a outubro deste ano, a Entretexto promoveu a segunda edição consecutiva do Lab10, uma oficina de escrita online, que reuniu dez pessoas interessadas em escrever com regularidade por dez semanas. Este ano a proposta incluiu um desafio a mais: os textos seriam uma “escrita de si”, ou seja, não ficcional. Agora temos o prazer de compartilhar alguns dos belos frutos desse trabalho.

 

4 Comentários
  • Genisson angelo guimarães
    Genisson angelo guimarães
    Responder

    Muito bom. A escrita é uma excelente ferramenta de autoconhecimento e acesso às nossas interioridades. Parabéns Toni e parabéns Iana por seu trabalho na frente da Entretexto.

    21/11/2018 at 13:13
    • Toni Somlo
      Responder

      Muito obrigada!

      29/11/2018 at 09:08
  • Rosi Giordano
    Responder

    Tony
    adorei suas memórias. Bem escritas e trans-lúcidas. Uma mulher cheia de mudanças e desafios. ADOREI!
    Rosi

    28/11/2018 at 01:58
    • Toni Somlo
      Responder

      Rosi querida, muito obrigada pelo elogio. Sempre gentil!

      29/11/2018 at 09:10

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