Artigo para o Jornal d’Aqui, novembro de 2020

 

De tempos em tempos, percebemos que algo precisa ser mudado em nossas vidas e nos determinamos a adotar novos hábitos, que sejam mais saudáveis. Pode ser em relação à alimentação, atividade física, cuidados com a casa, aquela prática de meditação que há tempos ensaiamos começar, mudanças em nossa vida social, espiritual, familiar ou no trabalho. Pode ser que nos determinemos firmemente a deixar algo que não faz bem também, como o cigarro, a correria, emoções negativas ou outros vícios.

Acontece que muitas vezes até mesmo implementar o começo da mudança é difícil, e ela não se sustenta muito além de uma segunda-feira de entusiasmo e motivação. Ainda que vençamos essa etapa, um desafio maior quase certamente se apresentará, que é o de manter os novos hábitos a ponto de eles se tornarem parte natural das nossas vidas, sem que precisemos estar sempre nos lembrando deles e nos esforçando nas novas direções escolhidas.

Por que isso acontece? Por que é tão difícil mudar e manter as mudanças, mesmo aquelas pelas quais optamos e que temos consciência de que nos fazem bem? Qual é a chave quando dá certo?

Para pensar nisso, vamos começar entendendo por que adotamos hábitos ruins, comportamentos que nos fazem mal?

Por que aceitamos ingerir comidas não saudáveis ou em excesso, por exemplo? Por que nos deixamos ficar em relações pessoais ou de trabalho negativas e que nos prejudicam? Por que consumimos drogas de vários tipos, inclusive medicamentos, agrotóxicos, programas vazios, conteúdos idem das redes sociais? Por que fazemos coisas de forma compulsiva – e ao fazer assim, qualquer coisa, por mais benéfica que seja, se torna tóxica?

Ora, tudo depende dos sentimentos que nutrimos por nós. Vamos destinar a nós tudo aquilo que estiver em sintonia com a imagem e os sentimentos que temos por nós mesmas(os), não é óbvio? Imagine que você tem um copo de veneno na mão e que pode dá-lo a quem desejar. Para quem você destinaria o veneno? Às vezes, mesmo sendo apenas um exercício de imaginação, é difícil fazer o gesto até para aquela pessoa que mais causa perturbações ou gera sentimentos ruins na nossa vida. Mas certamente é impossível, mesmo sendo apenas imaginação, dar o veneno a alguém de quem gostamos.

Então, por que nos envenenamos?

Hora de rever e nutrir melhores sentimentos por nós mesmas(os), não?

No entanto, existe ainda um outro ponto, que é o fato de que muitas vezes não identificamos – ou em algum momento da vida paramos de identificar – os venenos quando estamos diante deles. Pela força do próprio hábito, que em geral se instalou em tempos dos quais nem temos mais lembrança, é muito fácil e automático tomar os caminhos já percorridos tantas e tantas vezes, sem questionar para onde eles nos levam e sem força para mudar de direção.

Isso sem falar que esses venenos aos quais nós acabamos nos habituando, em geral, foram entrando em nossas vidas como compensações para angústias, tristezas ou qualquer outro sentimento difícil de elaborar. E no balanço final, ainda era melhor apelar para eles, os venenos, do que entrar em estados emocionais complicados, para os quais não encontrávamos saídas. Nesse sentido, todos sabemos o quanto comer em excesso, por exemplo, tem função de compensar ou de preencher vazios, e que o trabalho excessivo, compras compulsivas, fumar, beber etc. podem ser facilmente identificados como válvulas de escape para situações que não conseguimos resolver.

No entanto, porque os venenos não resolvem problemas, seguimos carregando os problemas – e os venenos – e vamos repetindo e repetindo as ações que prometem amenizar o impacto dos problemas, até que elas se tornam os hábitos arraigados e tóxicos que são. Nesse ponto já não conseguimos verdadeiramente discriminar, não só com a razão, mas com nossas próprias sensações, que, ao nos entregarmos a eles, os venenos, estamos ingerindo o que nos faz mal e só acrescenta mais problemas a nossas vidas.

Existe uma historinha contada entre praticantes de meditação que ajuda a entender e nos motivar a criar um novo hábito, como o de começar a meditar. Imagine que você está numa clareira no meio da mata e precisa buscar água num rio próximo. Você abre uma picada e chega até o rio. Nos dias seguintes vai sempre pelo mesmo caminho buscar essa água. Aos poucos, o caminho se torna mais aberto e mais fácil de percorrer, pelo próprio fato de você transitar por ele todos os dias.

No entanto, em algum momento alguém lhe conta que aquela água não é boa e que você precisa se abastecer num ponto mais alto do rio, aonde a água chega realmente limpa. Pois bem, a dificuldade de abrir uma nova picada é a mesma que sentimos quando precisamos estabelecer um novo hábito. E se estivermos com sede, a facilidade com que nos lançaremos ao caminho já aberto será enorme e precisaremos de muita força para não seguirmos pelo que é mais fácil e para nos dedicarmos a abrir a nova picada pela mata.

A boa notícia é que uma vez que tenhamos feito isso, com tempo, diligência e persistência, aos poucos a nova picada estará aberta e será fácil transitar por ela. Numa outra etapa ainda, a picada antiga se fechará. Então, o trabalho estará completo, porque seria preciso muito esforço para voltar a percorrer o caminho antigo, esforço este que já não teremos nenhum interesse de investir.

Vamos tentar!? Por algum tempo, será preciso não só manter o esforço, como enxergar que os novos caminhos são essa trilha para uma vida melhor, que merecemos. O reconhecimento das mudanças como sendo um presente que nos damos é fundamental. Ninguém consegue manter aquilo que é indesejável. Isso é absolutamente antinatural. Então, boas discriminações, tanto de nós quanto do que colocamos em nossas vidas, são chavezinhas essenciais para as mudanças que queremos.

Ótima semana a todas e todos. Feliz novos hábitos!

 

 

 

 

Iana Ferreira