Para jamais te esquecer – Genisson Guimarães

Para jamais te esquecer – Genisson Guimarães

(Clarice – parte final)

 

O amor de Clarice por Carlos era sentimento endereçado à eternidade, como um último som que não espera resposta. Tomada por um pensamento agudo, desesperado e feliz quando o encontrava, Clarice via seu ideal de amor dissolver-se numa simples brincadeira de mal gosto ao ver Carlos ao lado da esposa e do filho do casal. Logo assomava-lhe uma espécie de serenidade indiferente e opaca, e seguia seus afazeres, mentindo para si mesma, convencendo-se de que aquilo não era amor, mas uma admiração ingênua advinda da fragilidade de seus espaços vazios.

 

Mas não! Aquele olhar habitava outra existência; sua dimensão era silenciosa e ultrapassava os limites socializantes e sua origem era algum magma primordial sedento e desejoso de dilatação, como se habitasse tempos e espaços diferentes, inegociáveis. E aquele conflito só aumentava cada dia mais, avolumando-se e atropelando a si mesmo; um querer que não se resolvia nem por olhares nem por palavras.

 

E se beijaram. Carlos, casado e pai de uma criança, e Clarice, ainda jovem e descobrindo-se em seus sonhos, desenredando-se e ajustando-se a seus espaços, beijaram-se com ardor e paixão.

 

Passado o instante de vastidão, com a boca quente e o coração palpitando de medo e excitação, Clarice abandonou a casa onde trabalhava e deixou sua primeira paixão. A longa avenida até chegar ao ponto de ônibus pareceu-lhe esticada e deserta. Dentro de si corria um tempo paralelo e suspenso, como se uma nova dimensão lhe fosse apresentada.

 

Por um instante desejou que nada daquilo tivesse acontecido; pesou-lhe a culpa e o remorso ao pensar na esposa de Carlos e na criança. Há horas em que não se quer ter sentimentos. Sabia que devaneava, mas não resistia ao pensamento de que ele também a amava. O único ato do qual tomou consciência foi erguer o braço, de modo autoritário e brusco, ao visualizar ao fundo o ônibus cambaleante que lhe devolveria à casa.

 

Clarice avançou na vida. Buscou a concretização quase irrealizável, mas não impossível. Estudou, trabalhou, avançou criando o que não existia e acrescentando algo ao que já existia. Fez-se mulher. Desejou, amou, gestou, serviu. Sem servir há pouco a fazer.

 

Mas nunca esqueceu Carlos. Ele era a impossibilidade de sua vida. Mas Carlos continuava a existir. Aos poucos Clarice apoderou-se do sentimento de que a impossibilidade é querer atingir o que ainda é possível. O amor do passado e de um único beijo a agoniava, arrebatando-lhe as manhãs da solidão de uma vida divorciada e de filhos feitos.

 

Ao ser mãe, perdoou o pai antes deste partir. Perdoou a discussão do pai com o irmão que, nervoso, bateu o carro e morreu na fatalidade da emoção em rebeldia. O pai não foi o culpado. O pai apenas foi o que a vida lhe permitiu ser. E antes que a morte o levasse, Clarice reaproximou-se da família e foi outra de si mesma, reconciliada e em paz com as pessoas que a trouxeram ao mundo. Parecia ter descoberto que a vida é feita pelas mãos dos homens, sempre passível de aperfeiçoamento.

 

Clarice quis emprestar à sua vida ao menos que fosse uma aparência harmoniosa. Ela apaziguara tão bem a sua existência, tudo em seu devido lugar, que quase convenceu-se de que era plena. Mas havia algo em suspenso. Aquele beijo. E de todos os beijos e amores de sua vida, nenhum alcançou-lhe tanto suas profundezas inacessíveis como o beijo proibido e solitário de Carlos.

 

Guiada por sentimentos e reflexões tortuosas, alcançando o passado através da história feita de pessoas e momentos, Clarice alcançou uma informação que poderia conduzi-la ao encontro de quem Carlos havia se tornado, vinte anos após aquele beijo.

 

A vida engendrava uma fissura. Um ponto de ruptura e deslumbramento impensável em meio à matéria e à dureza das horas contingentes. Em um vistoso parque esvaziado e de bancos manchados de frutos roxos, Carlos e Clarice eram atingidos pelo susto que significava viver trazendo em si um amor imorredouro e resistente.

 

Eram livres e se amavam. Sim, foi o que o silêncio de um disse ao outro.

 

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Estreou nos livros com "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal. Em 2017 veio "A borboleta amarela e o mendigo", também de contos. É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
2 Comentários
  • Eunice
    Responder

    Adorei acompanhar a história da Clarice.

    19/12/2017 at 10:34
  • Carlos
    Responder

    Lindo o amor dos dois!

    19/12/2017 at 20:29

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