O primeiro dia de uma mulher – Genisson Guimarães

O primeiro dia de uma mulher – Genisson Guimarães

Ela era jovem, muito jovem. Não se poderia cobrar nada dela. Tolice. Como se a vida respeitasse os tempos individuais. Clarice era apressada, dessas eletricidades que correm à solta, conduzidas por si só numa inocência pura e automatizada. Bastava-lhe a luz do sol para atravessar os cenários e descortinar os véus ingênuos e castradores do núcleo duro da existência. Os pais não a entendiam e se recriminavam. Onde erraram? Não percebiam que a filha era desses seres que já nascem prontos, feitos em forma própria.

 

A casa e a cidade eram minúsculas para o tamanho dos sonhos da moça, afoita por penetrar em um universo de essência e desvelamento. Cansavam-lhe as verdades fabricadas e as falas moles e mortas que adornavam a falsa existência daquele lugar. Certa vez, o circo chegou na cidade e a menina, antes da estreia, correu para dentro das tendas, do lado interno do espetáculo. Maravilhou-se com a liberdade ali encontrada, com as formas e as cores daquele universo solto e sem raízes. Ali desenharam-se os esboços iniciais da decisão fundamental de sua vida.

 

Na pequena cidade, Clarice era excessiva e vivia na beira das coisas, mal tocando a existência. Por isso a decisão. Buscava o centro, o mistério, o oculto encoberto pela totalidade; e sabia que o encontraria em si mesma, mas não ali. Precisava de novas formas e novos rostos, novos estímulos. Ansiava por um hoje que se desequilibrasse em amanhã, rejeitando o eterno presente pálido e imóvel que a consumia minuto a minuto.  Se ali permanecesse evolar-se-ia pelos ares, sem identidade e ignorante de si mesma.

 

A angústia que lhe oprimia o peito a alimentava e a guiava em direção ao ato vindouro, o ponto de fratura. Entendia que o sentimento doloroso nada mais era que um fragmento de si escapando da escuridão e vindo à luz pedir por socorro. Sua voz íntima era elevada e ardente, mas era preciso calma para observá-la sem contaminar-se pela dor que lhe ofuscaria o significado.

 

Na última noite, durante o jantar, despediu-se em silêncio dos pais. Subiu para o quarto, revisou a mochila e sentou-se no parapeito da janela. Olhou para a lua e pensou que no dia seguinte olharia para a mesma lua, mas de um lugar distante. Deixou-se acariciar pela brisa suave e discreta da noite, outrora fonte de tristeza. Mas naquele instante sentia-se como um prisioneiro prestes a ganhar a liberdade, carregando no peito uma espécie de euforia contida.

 

Clarice sabia que não poderia errar. Acaso seu plano falhasse e o pai descobrisse, preferiria a morte a encarar a fúria violenta do homem que sempre lhe fora um estranho. Guardava o único pesar para a mãe, que já sofrera a perda do outro filho alguns anos antes. Mas no fundo a mulher sabia que a cria precisava de outro lugar para encontrar-se. Ali, naquela cidadezinha e próxima do pai, ela definharia.

 

A melhor amiga e única confidente, Virginia, logo chegaria com uma escada. Clarice encobriria os travesseiros na cama com um lençol, pegaria sua mochila e deixaria a casa pela janela, marchando em direção à pequena rodoviária da cidade.

 

No dia em que completou dezoito anos, Clarice fugiu de casa.

 

Imagem: Petar Paunchev

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, futuro filósofo oficialmente formado e médico psiquiatra. Iniciou a carreira de escritor com a publicação de Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad, na Espanha, no ano de 2014, publicado em 2015 no Brasil e em Portugal pela editora Chiado. É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
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2 Comentários
  • Eunice Satie Uemori
    Responder

    Lindo! um momento tão difícil para Clarice contada com tanta sensibilidade. Adorei!!!

    novembro 3, 2017 at 5:02 pm
  • Verônica Cypriano
    Responder

    Tão suave e ao mesmo tempo empolgante!
    Amei!

    novembro 22, 2017 at 10:17 pm

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