Novo instante – Genisson Guimarães

Novo instante – Genisson Guimarães

Naquele momento indeciso e frágil, Clarice deixou-se invadir, não sem medo. Habitava uma realidade inegável, de difícil expressão; um habitat obscuro e de débil entendimento. Era uma sensação, apenas uma sensação desacompanhada de um adjetivo capaz de unir as pontas da linguagem e do instante fugidio. Surpreendeu-a uma delicadeza preguiçosamente aconchegada na dureza seca e fria do instante, ainda sem compreensão. Sua consciência lucilava de modo afoito e vazado, sem substância concreta e significado.

 

Ela era mas sem saber que era.

 

Se alcançasse um movimento que rompesse a inércia, assentiria suavemente com a cabeça, ainda que vagasse em território desconhecido. Mas seu corpo inteiro permanecia prudentemente adormecido; não ousava romper e invadir algo misterioso e de natureza indizível, mesmo para uma jovem de tão graciosos atos. Havia ali uma integridade intocável, uma ordem das coisas que não se sujeitava, empenhada que estava em apenas ser. Clarice era, sim, já era há longos quinze anos, completados exatamente naquele dia, naquele instante. Mas sua consciência, acomodada gostosamente no silêncio do sono, ainda não despertara e apenas existia enquanto potência, um vir a ser que em instantes mergulharia nas águas brilhantes e maduras da realidade.

 

Sentiu, distante e pequeno, um estremecimento interno, como se algo a incomodasse. Ignorava que era um nascimento a caminho, engendrado no recôndito adormecido da ausência. Mas o existir parecia hesitar, melindrado pelo universo desconhecido do próximo instante, infinita e insolúvel incógnita que o pensamento insiste em alcançar, sofrendo em vão.

 

As pálpebras da menina denunciavam a inquietação de seus olhos, bocado mais cristalino de seu corpo e responsável pelo deslumbramento que viria a seguir. Do lado de fora de seu quarto grunhidos enovelados ganhavam, aos poucos, contornos sonoros nítidos denunciando que a casa já vivia, recuperada do desmaio da noite anterior. O sol, àquela altura, já revelava as cores de todos os rostos e de todos os caminhos da cidade, incluindo os difíceis, os interrompidos e os impossíveis. Era sol para todos.

 

E sob a forma de uma facada doce e penetrante, a voz estridente da mãe rasgou o silencio da solidão noturna de Clarice, que despertou, num movimento de vida e assustada, para seus quinze anos de existência.

 

Imagem: Maurício Dc

 

 

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, futuro filósofo oficialmente formado e médico psiquiatra. Iniciou a carreira de escritor com a publicação de Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad, na Espanha, no ano de 2014, publicado em 2015 no Brasil e em Portugal pela editora Chiado. É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
Genisson Angelo Guimarães

Últimos posts por Genisson Angelo Guimarães (exibir todos)

2 Comentários
  • Eunice
    Responder

    Adorei! Que bom que voltou a publicar os textos.

    outubro 2, 2017 at 11:52 am
  • Luisa
    Responder

    Amei. Que talento para concatenar palavras com ideias. Consigo ver a cena e transformá-la em tela. Lindo!!

    outubro 3, 2017 at 6:02 am

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: