Nossa majestade, o dinheiro – Genisson Guimarães

Nossa majestade, o dinheiro – Genisson Guimarães

Reinado: ser rei; governar, dominar; estar em vigor; preponderar; grassar, epidemia… (dicionário Aurélio).

 

Outrora o rei era um homem coroado e entronizado, concebido como depositário do poder divino e diante do qual todos se curvavam e ao qual se submetiam.  Hoje o cenário é diferente, e o nosso rei é outro.

 

Somos todos personagens à mercê de um rei “diferente”, depositário não de um Deus, mas das neuroses dos tempos pós-modernos e que nos conduz feito marionetes desajeitadas e aturdidas. O trono, outrora ocupado pela figura do rei e posteriormente pelas religiões, hoje é ocupado com toda pompa e glamour pela neurose das neuroses: o acúmulo de capital.

 

Nossa sociedade é definida pelo utilitarismo. Tudo e todos são “colocados” no mesmo pacote, de modo que não há muita diferença entre o Humano e um maquinário qualquer capaz de acelerar a produção. O mercado é selvagem e feroz, tal como uma besta apocalíptica ávida por devorar os fracos e destituídos do ímpeto mercadológico. E nessa equação há um componente que não pode, em hipótese alguma, fazer parte dessa contenda lucrativa: o fator Humano. 

 

O produto final da “lógica de mercado”, onde o lucro incessante é buscado de modo quase selvagem (mas nunca alcançado) é de uma tristeza sem fim para a espécie humana. Tal “lógica” invade-nos como células cancerosas que rapidamente tomam nossa carne, nossos ossos e nosso sangue, e sem que percebamos, felizes e contentes com o carro do ano ou o apartamento dos sonhos (com segurança privativa, claro, para garantir nossa “liberdade”), o rei das neuroses se infiltrou, na surdina, em nosso modo de sentir, de pensar e de agir. O pior é que não nos damos conta disso.

 

Um exemplo simples: suponhamos uma pessoa que seguiu naturalmente a “conversa em andamento” da vida tal qual manda a cartilha: estudou, formou-se, trabalhou muito, ganhou algum dinheiro suficiente para suas necessidades básicas e guardou uma pequena reserva. Lá pelas tantas, essa pessoa, ainda jovem e sem uma família constituída, e sentindo-se infeliz com sua vida e adoecendo com seu trabalho, sente-se dominado pela imperiosa consciência de ficar sozinho com Si mesmo, dando livre expressão a uma espécie de conceito domesticado que de repente se liberta e se impõe de modo vigoroso. Ela deixa o trabalho e reconfigura sua passagem do tempo. Nosso personagem passa a dormir mais que as cinco ou seis horas habituais da rotina de trabalho e preenche seu tempo com atividade física, leitura, música, cinema, escrita, solitude, reflexão, trabalho voluntário e conversas com os bons amigos. Agora engendremos uma reflexão honesta, contextualizando tal cenário em nossa sociedade multitarefa e utilitária.  Como essa pessoa seria vista aos olhos de seus familiares? E pela sociedade e seu mantra “tempo é dinheiro”?

 

O que passa despercebido, tamanha a neurose em relação ao dinheiro e ao acúmulo de bens, é que esse movimento de interiorização, legítimo e autêntico, é, acima de tudo, um movimento de humanização, “acúmulo” mais valioso que qualquer bem material e que redundará em uma existência autêntica, com sentido e propósito. Tal “rebeldia” desvela o desejo de libertação de um senso de necessidade que inexiste e que dissolve gradativamente sua personalidade, que resiste, em traços, em seu olhar assustado e triste.

 

A grande armadilha do ideal financeiro e que engendra a maior das neuroses é que ele é inalcançável e insaciável a um só tempo. Nunca “temos” o suficiente para saciar nossas novas “necessidades” (não apenas materiais), criadas diuturnamente pela sociedade de consumo. Por fim, tornamo-nos escravos da maior das escravidões: a escravidão autoimposta, onde somos senhores e escravos, algozes e vítimas de nós mesmos. Os pais que se matam de trabalhar para “dar aos filhos tudo de melhor” não percebem que estão fazendo justamente o oposto, roubando-lhes o que realmente há de melhor para uma criança: sua presença autêntica (sem o celular na mão, de preferência).

 

O capitalismo não é um sistema econômico perfeito, mas talvez seja o mais “praticável”, e que, a despeito de seus inúmeros problemas, conduziu nossa sociedade a avanços impensáveis há algum tempo. O problema não é o dinheiro em si, mas o modo como nos “curvamos” diante dele e esquecemos das pessoas mais importantes em cada fração de tempo de nossas vidas: nós mesmos e o outro ao nosso lado, seja ele nosso filho, um rei ou um mendigo.

 

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Escreveu "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal, e "A borboleta amarela e o mendigo" (2017). É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
Genisson Angelo Guimarães
1 Comentário
  • Eunice Satie Uemori
    Responder

    Vejo que, na corrida pela conquista financeira o final é a solidão.

    20/08/2018 at 05:02

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