Marina Morena Marina – Silvia Rocha (Lab10)

Marina Morena Marina – Silvia Rocha (Lab10)

Marina, a alagoana que veio trabalhar na casa de meus pais aos quinze anos, “era morena e magrinha como uma polinésia”, como no poema Desenho, de Cecília Meireles.

 

Marina aprendeu a ler e a escrever com minha mãe e foi grata a ela por isso, por toda a sua vida.

 

Ela veio cuidar de três meninas – Manoela, Cíntia e Lúcia.

 

Meus pais trabalhavam muito e era Marina quem cozinhava, lavava roupa, passava, limpava a casa e cantava. E como cantava! Ela era alegre e bem humorada. Não me lembro de ela ter sido rude comigo em todos os anos em que trabalhou na nossa casa. Ela morava conosco. E se intitulava “nossa mãe preta”.

 

Tive uma professora no curso de Pedagogia que falava que as crianças paulistanas, filhas de professoras, tinham a alma nordestina, porque por nordestinas eram criadas. E certa vez, ao dar uma carona para a renomada professora da USP Eclea Bosi, ouvi dela esta fala: “Há pessoas que pregam o comunismo e, nas suas casas, há sempre uma nordestina cansada fazendo as tarefas do lar.”

 

Voltemos à jovem Marina, que nos criou com alegria e contava para nós lindas histórias e “causos” da sua terra natal e da sua família.

 

Foi com ela que aprendi meu gosto pela escrita. Era eu quem escrevia para ela longas cartas que iam para o interior das Alagoas. Eu ficava tão ansiosa quanto ela para receber suas cartas e respondê-las e recebê-las e respondê-las… por anos a fio. Já sabia de cor o jeito de começar:

 

“Espero que quando esta carta chegue, encontre todos com saúde e felicidade…”

 

E o jeito de terminar as cartas:

 

“Mande lembranças, abraços e beijos para…” E aí vinha um corolário de parentes e amigos, descritos um a um.

 

Antes de Marina chegar em casa e me encontrar com cinco anos de idade, eu só chorava. Eu sentava no sofá “para chorar”. E chorava, chorava e chorava sem parar. Ia para o clube e chorava. Ia ao parquinho e, do nada, começava a chorar.

 

Chorava e chorava.

 

Meu pai – professor de Português e bancário, na época – depois, me confessou seus temores na época: “Meu Deus! Acho que esta menina nunca vai aprender a ler e a escrever, de tanto que ela chora!” Acho que, para o meu pai, não poderia haver um mal maior!

 

Os choros diminuíram.

 

Marina se casou e, depois, continuou trabalhando em casa, como diarista, e viu suas três meninas cresceram, estudarem, trabalharem e casarem.

 

Ela me benzeu por toda a vida e descobriu muito antes de mim, da minha médica e dos exames, que eu estava grávida da minha primeira filha, só pelo brilho dos meus olhos. E me apoiou muito para eu me casar com meu atual marido.

 

Marina teve seis filhos, “estudou” cinco, sendo que um deles se formou em Filosofia e outro fez pós-graduação em Administração de Empresas, além da filha técnica em enfermagem, da outra assistente social e de um microempresário da área de segurança.

 

Foi uma mãe firme e dedicada e uma esposa abnegada.

 

Amava meus pais e era muito grata a eles. Meu pai, inclusive, a ajudou a comprar uma casa que depois virou a casa no interior para onde se mudou e viveu nos últimos dez anos de sua vida.

Marina me visitou inúmeras vezes, mesmo depois que se mudou para o interior. Era sempre uma festa! Quando vinha em casa, benzia a mim e aos meus filhos.

 

Marina me ensinou tantas coisas… a gostar das coisas pequenas, simples e belas. Nossa! Nunca fiz um poema para ela!

 

Marina Morena Marina: você me criou!

 
 

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Pedagoga, jornalista e mestre em Jornalismo pela ECA-USP, escritora e poeta, professora e oficineira de haikai, colaboradora da coluna Põe Poesia do Jornal d’Aqui, entre outras tantas atividades, Sílvia Rocha, 60, é daquelas pessoas inquietas que compartilha generosamente o entusiasmo que nela transborda.  Participou das duas edições do LAB10 e em seu texto de apresentação deste ano o “eu”, um viajante da vida, se mistura quase que por completo com roteiros de viagens, as que fez e as sonha/planeja fazer. “Tenho a alma tomada por viagens, sonhos de viagens, planos de viagens, vontade de viagens, lembranças de viagens, vontades de viagens e… viagens.” Ao contrário de muitos viajantes, no entanto, sua vidagem, como nomeia a filha, inclui corajosamente a viagem mais corajosa, a que se faz para dentro de si e de suas próprias histórias. Sílvia foi assim uma participante inteira e vibrante nas propostas dessas “escritas de si” do LAB10 2018. Agradecemos a essa poeta-viajante pelas histórias deliciosas, desfiadoras, nuas, às vezes doloridas, sempre muito verdadeiras e profundas.

 
 

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O Lab10 é uma proposta de oficina online da Entretexto, que em 2018 ganhou sua segunda edição. A ideia tem sido a de reunir dez participantes que se disponham a escrever e compartilhar seus textos durante dez semanas. Este ano houve um enfoque especial, com uma proposta voltada para o não ficcional e de os textos partirem sempre de uma escrita autobiográfica, uma escrita de si. Em 2019 tem mais! 

 
 
 

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