FLUÊNCIA

FLUÊNCIA

Por Alessandra Fernandes

Chovia. Os pés molhados, pesados, o cinzento da cidade subindo pela barra da calça até os joelhos. O vento frio deixava minhas vestes ainda mais gélidas, meu semblante mostrava que não só fora chovia.

Guarda-chuva para guardar quem? Eu, um homem já molhado, já exposto, já ferido e cansado. O guarda-chuva furado e o peso do maremoto sob as pálpebras.

Nesse mesmo dia, vi na junção entre duas placas de concreto no solo uma minúscula florzinha vermelha. Olhei para ela, imaginei que desabrochava como mulher e, sorridente, brincava e ria. Ao notar minha úmida situação, perguntou se eu queria juntar-me a ela em seu grande guarda-chuva. Tinha espaço para mim.

Não me senti feliz. Meu tom amarronzado e urbano, meus olhos cansados e sem cor poderiam contaminar a imaculada florzinha. Fiquei ali parado, olhando para ela como um bobo, sem saber se o seu colorido poderia ser meu também, se o seu sorriso e olhos brilhantes poderiam voltar-se para mim.

Não quis arrancá-la.

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