Criar, contar, escrever, contar… – processos criativos com as palavras

Criar, contar, escrever, contar… – processos criativos com as palavras

Como prometido, às quartas-feiras, com a maior regularidade que nos for possível, compartilharemos trechos dos livros que a Entretexto ganhou de presente e que têm como tema o processo de escrever, a criação narrativa, o labor com as palavras.

 

Para aqueles que desejam desfrutar o prazer de escrever, aprimorar atividades com as palavras que já realizem ou encontrar estímulo para se engajar e dar vazão a processos criativos, que tal tornar este um ponto de encontro!? Fica feito o convite.

 

Nesta semana de comemoração do 8 de março, estamos privilegiando mulheres escritoras e, por isso, segue um trecho do livro de Anne Lamott:

 

(Da PARTE UM – Escrever, capítulo Começando)

 

“A primeira coisa que digo aos meus novos alunos no primeiro dia de um curso é que escrever bem é contar a verdade. Somos uma espécie que precisa e quer entender quem é. Há muitas coisas que queremos dizer e descobrir. Ano após ano, meus alunos têm diversas histórias para contar e iniciam projetos com empolgação e até com alegria – finalmente suas vozes serão ouvidas e eles vão poder se dedicar àquilo que queriam fazer desde a infância. Porém, depois de alguns dias em frente à escrivaninha, a tentativa de dizer a verdade de um modo interessante se revela tão fácil e agradável quanto dar banho em um gato. Alguns perdem a esperança. Sua noção de identidade e de história se despedaça e desmorona. (…)

 

‘Nem sei por onde começar’, alguém vai resmungar.

 

Digo que comece pela infância. Tape o nariz e mergulhe, escreva todas as suas lembranças com a maior sinceridade possível. Flannery O’Connor disse que qualquer pessoa que sobreviveu à infância tem material suficiente para escrever pelo resto da vida. Talvez sua infância tenha sido triste e terrível, mas isso não é um problema se for bem contado. No entanto, este ainda não é o momento de se preocupar com isso. Simplesmente comece a escrever.”

 

Então, a autora dá dicas sobre o que escrever. Pode-se começar escrevendo as memórias dos primeiros anos de escola. Ou talvez seja melhor se concentrar nas férias ou grandes acontecimentos, pois isso talvez ajude a trazer lembranças mais fortes. É possível contar tudo aquilo que era proibido, pois as lembranças nos pertencem.

 

“Simplesmente ponha no papel tudo o que você conseguir lembrar sobre os seus pais, irmãos, parentes e vizinhos. Mais tarde cuidaremos dos processos de difamação.

 

‘Mas como fazer isso?’, perguntam meus alunos.

 

Você deve tentar se sentar todo dia por volta do mesmo horário. É assim que você treina seu inconsciente a entrar em ação criativamente. Você se senta, digamos, às nove horas toda manhã ou às dez toda noite. Põe uma folha de papel na máquina de escrever ou liga o computador e abre um arquivo, depois olha para aquilo por mais ou menos uma hora. Você começa a se balançar – a princípio só um pouquinho, depois como uma enorme criança autista. Olha para o teto e para o relógio, boceja e fixa o olhar no papel mais uma vez. Com os dedos apoiados no teclado, aperta os olhos como se estivesse focando uma imagem que está se formando na sua mente – uma cena, um local, um personagem – e tenta acalmar a mente para poder ouvir o que aquela imagem tem a dizer sobre outras vozes na sua cabeça. Essas são as vozes da ansiedade, da crítica, da ruína, da culpa. E também da hipocondria grave. Talvez haja uma longa lista de coisas que devem ser feitas exatamente naquele momento: a comida que precisa ser tirada do congelador, compromissos que precisam ser agendados ou cancelados, pelos que precisam ser arrancados. Mas você aponta uma arma imaginária para sua cabeça e se força a ficar na frente da escrivaninha. Há uma leve dor na nuca. A ideia de que você está com meningite passa pela sua cabeça. Depois o telefone toca, você olha para o teto com raiva, invoca toda a sua benevolência e atende a ligação de maneira educada, talvez apenas com um levíssimo indício de irritação. Seu interlocutor pergunta se você está trabalhando, e você diz que sim, porque realmente está.

 

Diante de tudo isso, você consegue abrir espaço para a voz do escritor e começa a compor frases. Você começa a encadear palavras para compor uma história. Você está louco para se comunicar, edificar ou entreter, preservar momentos de beleza, alegria ou transcendência, dar vida a acontecimentos reais ou imaginários. Mas não pode forçar isso a acontecer. É uma questão de persistência, fé e trabalho árduo. Então, você deve apenas seguir em frente e começar.”

 

“Então, você deve apenas seguir em frente e começar.”

 

Vamos?

Palavra por palavra, instruções sobre escrever e viver, Anne Lamott, Editora Sextante, 2011.

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