Entre palavras – Genisson Guimarães

Entre palavras – Genisson Guimarães

Toda palavra é, antes de mera simbologia, uma instituição. Segundo a Enciclopédia de Filosofia de Stanford, instituições são estruturas de ordem social que regulam o comportamento humano, carregando em si uma função socializante que transcende os indivíduos e as intenções.

 

Analisemos juntos: toda palavra possui uma forma e é por meio desta que entramos em contato sensorial com a palavra em si . Mas à parte sua simbologia veicular, a palavra traz em seu âmago fundamental uma emoção própria, um sentido único, uma atribuição profunda de diferentes matizes e que reverbera de modo único em cada um de nós; é a memória afetiva da palavra. E como forma de darmos voz aos nossos sentimentos e pensamentos, as palavras funcionam como a ponte sensorial entre o mundo solitário habitado por nossa consciência e o mundo externo, o real onde se inserem os outros. Existimos socialmente por meio da linguagem, símbolos que organizam e estruturam nossas existências enquanto seres sociais.

 

E o que acontece, de essencial, entre os seres humanos no curso de uma relação dialogal, no “entre” do diálogo?

 

A palavra é portadora do Ser do homem. É por meio da palavra que o homem se introduz na existência. Este é um ato do homem por meio do qual ele se faz homem e se situa no mundo com os outros. E entre as palavras de um diálogo, há duas intencionalidades que se inter-relacionam e atualizam a consciência vivida até aquele ponto da existência, engendrando o novo a partir do instante de encontro.

 

No entanto, a natureza da linguagem é de tal amplidão que a manuseamos “a torto e a direito” de acordo com os nossos desejos e intencionalidades. E em um mundo de razão instrumentalizada e utilitária, é comum passarmos um dia inteiro trocando palavras com personagens criados pelo humano que o habita, enquanto este, aturdido, cria e recria personagens linguísticos a todo instante, no afã de um encontro consigo através do outro.

 

A despeito da evolução científica e tecnológica de nossos tempos, há em curso um processo de “enfeiamento” da linguagem que deveria nos aproximar; perde-se, gradativamente, a beleza e a riqueza contidas em uma escuta autêntica, cada vez mais rara. Há um excesso de “eu” e um empobrecimento do “outro”: como me ocuparei das mazelas do mundo se antes meu país está em crise? Por que irei me preocupar com meu país se minha cidade está um caos? Como pensar em minha cidade se meu bairro está cheio de problemas? Quem se importa com o bairro se minha família é o que mais importa? Como irei me ocupar do outro se eu sou o mais importante? E em meio a esse egoísmo e reducionismo que chega às raias do próprio umbigo, a linguagem sai ruidosa, mastigada, deformada e vociferada para o outro, que, por sua vez, a recebe com rancor, decepção e raiva, gerando um ciclo de sentimentos inferiores sem fim.

 

Ultrapassemos a mera análise objetiva da estrutura lógica ou semântica da linguagem. Muito mais que um simples dado, a linguagem é um ato humano, por meio do qual o homem se faz homem. A palavra é a portadora da verdade do Ser. E a espécie humana, com o pescoço encurvado e a comunicação gutural, ensaia um retorno às origens.

 

Muito se teoriza acerca das mudanças necessárias para o surgimento de novos tempos. Uma sugestão: tratemos melhor nossa instituição primordial, as palavras.

 
 

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Estreou nos livros com "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal. Em 2017 veio "A borboleta amarela e o mendigo", também de contos. É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
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