Encontro com o amor – Genisson Guimarães

Encontro com o amor – Genisson Guimarães

Enquanto vivia para o mundo, no âmago de suas durezas e sobressaltos, Clarice, em seu íntimo, persistia em uma busca quase concreta por um novo ânimo de vida, por uma forma de suficiência capaz de dissolver a dor que lhe oprimia o peito. Não lhe importava que a alegria não a alcançasse; queria apenas a serenidade macia e vagarosa, um modo de existir sem alarde e sustos, mas autêntico. Era paz o que buscava.

 

Percebia-se, no entanto, marcada demais pela existência, aferrada às emoções difíceis e doloridas. Por que sentia que a vida dos outros era lisa e plana? Os sorrisos soltos, as palavras leves distribuídas ao vento… Eram tantas as evidências que duvidava que sua tristeza não fosse uma ilha, um montinho de terra isolado em meio a um mar de ingênua alegria. O mundo a engolia e ela tentava, com súbita sofreguidão, subir e subir até alcançar a superfície e respirar um pouco de ar puro, até que sentia a perna novamente puxada com força, distante da delicadeza possível e esperada. Os modos das horas de existência lhe pareciam rudes e mesquinhos; sentia-se flanando em uma vida que não era a sua, em um lugar estranho e doloroso.

 

Clarice era sem bordas; não se achava nela um início ou um fim. Houvesse ao menos a margem última, haveria um modo de possível encerramento. Mas a liberdade e autonomia de sua consciência não lhe permitiam sonhar. Era um fluxo constante, um movimento infindável e distante de um objeto imóvel e definido. E por isso o corpo era um mero detalhe, instrumento frágil e ingênuo que apenas a localizava no universo da experiência necessária, porque é, apenas é. Existir é, antecede a todo o resto, e ela não se recusava a tal aventura; não sem esforço, a moça expandia-se além de seus ingênuos limites e abarcava a rotina bruta demais para sua alma.

 

No entanto havia um lugar, um único lugar onde essa dicotomia irreconciliável repousava em paz sem debater-se em busca de sincronia. Os olhos de Carlos dissolviam todas as incongruências e conflitos de seu ser, singrando velozmente mar adentro de seu corpo quase fechado e atingindo-lhe o que repousava no íntimo de seu coração. Ela largava-se sem receios, indefesa, como uma ingenuidade perdida que se encontra no algo que lhe pertence e toma-lhe de assalto. E no silencioso bailar de doces palavras e movimentos monótonos que a domesticava e a hipnotizava, Clarice experimentava a total ausência de domínio e a leveza, algo macio e de calor inominável. Era pertencimento o que experimentava nas poucas horas ao lado do amor distante e impossível.

 

(continua semana que vem)

 

Imagem: Pixabay

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Escreveu "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal, e "A borboleta amarela e o mendigo" (2017). É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
Genisson Angelo Guimarães
3 Comentários
  • Eunice Satie Uemori
    Responder

    Adorei!!!

    18/12/2017 at 20:48
  • Genisson Angelo Guimarães
    Genisson Angelo Guimarães
    Responder

    Obrigado, Eunice!
    Hoje mesmo sai o final da história de Clarice.

    19/12/2017 at 09:27
  • Verônica Cypriano
    Responder

    Que linda história!

    07/02/2018 at 22:00

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