Duas palavras – Isabel Allende (2a parte)

Duas palavras – Isabel Allende (2a parte)

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Descartou as palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam desbotadas pelo abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as confusas, para ficar apenas com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e logo fez sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel e, ao vê-lo, tornou a sentir a mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e esperou, enquanto ele a olhava, segurando-o com a ponta dos dedos.

 

— Que caralho diz isto aqui? — perguntou por fim.

 

— Não sabe ler?

 

— O que sei fazer é a guerra — respondeu ele.

 

Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o seu cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou, viu a emoção no rosto dos homens da tropa que se haviam juntado para escutá-la e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, certo de que, com essas palavras, a cadeira presidencial seria sua.

 

— Se, depois de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque essa droga serve, Coronel — aprovou o Mulato.

 

— Quanto devo pelo seu trabalho, mulher? — perguntou o chefe.

 

— Um peso, Coronel.

 

— Não é caro — disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada ao cinturão com os restos do último saque.

 

— Além disso, tem direito a uma prenda. Correspondem-lhe duas palavras secretas — disse Belisa Crepusculario.

 

— Como é isso?

 

Ela começou a lhe explicar que, por cada cinquenta centavos que um cliente pagava, oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não tinha o menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira tão bem. Ela se aproximou devagar da cadeira de couro em que ele estava sentado e inclinou-se para lhe dar o seu presente. Então o homem sentiu o cheiro de animal montanhês que saía daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelas ancas, o roçar terrível dos seus cabelos, o perfume de hortelã-pimenta sussurrando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.

 

— São tuas, Coronel — disse ao retirar-se. — Pode usá-las como quiser.

 

O Mulato acompanhou Belisa até a beira do caminho, sem deixar de olhá-la com olhos suplicantes de cão perdido, mas quando estendeu a mão para tocá-la, ela o deteve com um jorro de palavras inventadas que tiveram a virtude de lhe espantar o desejo, porque julgou tratar-se de alguma maldição irrevogável.

 

Nos meses de setembro, outubro e novembro, o Coronel pronunciou o seu discurso tantas vezes, que, se não fosse feito com palavras refulgentes e duradouras, o uso tê-lo-ia transformado em cinza. Percorreu o país em todas as direções, entrando nas cidades com ar triunfal e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, onde só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centra da praça, o Mulato e os seus homens distribuíam caramelos e pintavam o seu nome com tinta dourada nas paredes, mas ninguém prestava atenção nesses recursos de mercador, porque estavam todos deslumbrados pela clareza das suas propostas e pela lucidez poética dos seus argumentos, contagiados pelo seu desejo tremendo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez em suas vidas. Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava tiros de pistola para o ar e soltava bombas, e, quando por fim se retiravam, ficava atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como a recordação magnífica de um cometa. Logo o Coronel se tornou o político mais popular. Era um fenômeno nunca visto, aquele homem surgido da guerra civil, cheio de cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espalhava pelo território nacional comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele. Os jornalistas viajavam de longe para entrevistá-lo e repetir as suas frases, e assim cresceu o número de seus seguidores e inimigos.

 

— Estamos indo bem, Coronel! — disse o Mulato ao fim de doze semanas de êxito.

 

Mas o candidato não o ouviu. Estava repetindo as suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais frequência. Dizia-as quando o abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levava-as consigo em seu cavalo, pensava nelas antes de pronunciar o seu célebre discurso e surpreendia-se a saboreá-las nos momentos descuidados. E, em todas as ocasiões em que essas duas palavras lhe vinham à mente, evocava a presença de Belisa Crepusculario e excitavam-se-lhe os sentidos com a recordação do cheiro montanhês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o perfume de hortelã-pimenta, até que começou a andar como um sonâmbulo, e seus homens compreenderam que se lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.

 

— Que se passa consigo, Coronel? — perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um dia, o chefe não aguentou mais e confessou-lhe que a razão do seu ânimo eram as duas palavras que trazia cravadas no ventre.

 

— Diga-me quais são, para ver se perdem o seu poder — pediu-lhe o fiel ajudante.

 

— Não as direi a você, são só minhas — replicou o Coronel.

 

Cansado de ver o chefe a definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu as suas pegadas por toda a vasta geografia até encontrá-la numa aldeia do Sul, instalada debaixo do toldo do seu ofício, contando seu rosário de notícias. Plantou-se à sua frente com as pernas abertas, empunhando a arma.

 

— Venha comigo — ordenou.

 

Ela estava à sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xale nos ombros e, em silêncio, montou na garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto em todo o caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se tornara raiva, e só o medo que sua língua lhe inspirava o impedia de desfazê-la a chicotada; também não estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois chegaram ao acampamento; levou de imediato sua prisioneira até ao candidato, diante de toda a tropa.

 

— Coronel, trouxe esta bruxa para que lhe devolva as suas palavras e para ela lhe devolver a hombridade — disse, apontando o cano da espingarda para a nuca da mulher.

 

O Coronel e Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se à distância. Os homens compreenderam, então, que o seu chefe já não podia desfazer-se do feitiço das suas palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ele avançou e lhe pegou na mão.

 
 

Contos de Eva Luna, Isabel Allende, Ed. Bertrand Brasil, 2001 (publicado pela primeira vez em 1988)

 
 

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Iana Ferreira
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