De Sorrento a Toledo – Mónica Palacios (Lab10)

De Sorrento a Toledo – Mónica Palacios (Lab10)

A despedida dos amigos da infância e adolescência é um desgarre visceral. Lembranças que atordoam e a sensação de não pertencer a lugar nenhum são angustiantes, como se te abraçasse uma centopeia vermelha com tentáculos cheios de gosma espessa e viscosa, cheiro ruim e sons agudos, quase ensurdecedores.

 

Tudo é relativo, mas, sim… sim… jamais para as emoções de um adolescente. Parecia um presságio, ela tinha na porta de seu quarto a seguinte frase: Pessoas reais estão repletas de seres imaginários.

 

Quando Maria Luz recebeu a notícia da transferência de seu pai e, portanto, de toda a família para uma cidade próxima a Madrid, foi como entrar no Mundo Maravilhoso de Alice, onde até Ilospvoc estava de férias.

 

E, assim, Maria Luz precisou enfrentar sozinha cada dia.

 

A vida, obrigações dos pais, a realidade, o sustento da família passam a ser considerados quase diretrizes na vida de todas as famílias. É assim em qualquer lugar do mundo. Também é assim que o desgarre de uma adolescente de seu entorno de amizades é uma dor complicada e universal. Algo assim como descer à toca do coelho a cada dia e só ter encontros imaginários com pessoas da infância e da pré-adolescência. É ir aonde a Rainha Vermelha está, motivo pelo qual é preciso consultar Absolem para reconstruir a identidade e poder estar segura e inteira para responder: “Sim, eu sou Maria Luz”.

 

Maria Luz foi compartilhando essa angústia, aos poucos. Manteve longas conversas, passeios para se despedir melhor da sua cidade, conforme a alma aceitava a mudança. Mas a saudade que os amigos expressavam só lhe aguçava a dor da partida.

 

Muitas incógnitas, novas amizades e aquele vazio que tanto, tanto apertava o seu coração.

 

Toledo é uma cidade muito diferente de Sorrento, embora extremamente tradicional também. O baile para a apresentação das meninas de quinze anos à sociedade local era passaporte para se poder dançar nas festas. E, assim, muitas outras regras que uma sociedade impõe na surdina aos costumes da elite…

 

Maria Luz nunca tinha podido dançar nas festas, só faltavam alguns meses para esse tão esperado baile do Club Piccola e, dessa forma, poder entrar “triunfalmente” na sociedade dos adultos.

 

A mudança era iminente e todos seus amigos organizaram uma despedida. O melhor lugar, boa música, pessoas muito queridas, animação e, no ar, uma grande angústia pela sua partida. Tudo magnífico, mas não havia sido cogitado que o absurdo perduraria… naquela festa gigante, animadérrima, Maria Luz não pôde dançar. Sim, ela assistiu à festa – em sua homenagem – sentada, rodeada de amigos que se alternavam para abraçá-la, conversar e manifestar o carinho que ela tanto apreciava.

 

Foi assim, vestida de veludo verde, muito bonita, que passou sentada toda a noite, só porque as regras de uma sociedade retrógrada e pais muito severos não permitiam que se dançasse antes dos quinze. Sem dúvida, a força de sua obediência superou a coragem de quebrar regras e arriscar as consequências.

 

Chegou o dia da partida e, ante a tristeza evidente de Maria Luz, sua mãe lhe prometeu uma festa de quinze anos em Toledo, com os colegas recentes, e outra lá, em Sorrento, com os amigos de sempre.

 

A festa em Toledo foi um esforço sobre-humano da família para tornar aquilo uma bela lembrança. Nada disso. Maria Luz chorou muito, escondida no banheiro, antes de se apresentar ao olhar intrigado dos primeiros convidados.

 

Os anos se passaram e até hoje, já adulta, ela se lembra da promessa que não foi cumprida, a festa de quinze anos com os amigos do coração, em Sorrento.

 

Tenho escutado que com muita ilusão ela diz, entre gargalhadas: “A contrapartida será celebrar os meus cem anos lá, em Sorrento!”.

 

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Mónica Palacios, 69, é argentina. Já no Brasil, tornou-se Mestre em Literatura Infanto-Juvenil Comparada, professora de espanhol e autora de livros infantis (Cartas de ManúAventuras de Filipo e Medos? Nunca mais), que escreve inspirada especialmente nos netos, entre outras atividades que a energia de uma leonina sempre a faz empreender. O pseudônimo Sol usado nas semanas de anonimato do Lab 10 não poderiam representá-la melhor: “Amo a vida,  as emoções intensas, as amizades para sempre, viajar e assim costuro meus dias com o mundo que me rodeia”. Essa é também a expressão em seus textos, sempre vigorosos, carregados de emoção e, ao mesmo tempo, repletos da sua elegância solar. Foi muito bom tê-la conosco e desfrutar de sua generosidade em seus textos, participação e disposição, inclusive, de promover um encontro pessoal entre as participantes desta nossa oficina online.

 

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O Lab10 é uma proposta de oficina online da Entretexto, que em 2018 ganhou sua segunda edição. A ideia tem sido a de reunir dez participantes que se disponham a escrever e compartilhar seus textos durante dez semanas. Este ano houve um enfoque especial, com uma proposta voltada para o não ficcional e de os textos partirem sempre de uma escrita autobiográfica, uma escrita de si. Em 2019 tem mais!

 

 

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