Criança, afetividade e inteligência – Genisson Guimarães

Criança, afetividade e inteligência – Genisson Guimarães

A educação de outro Ser talvez seja a atribuição mais dotada de sentido que a existência possa nos oferecer. Para tal, partiríamos do princípio de que o educador fora educado e por isso apto à sua incursão pessoal nos meandros da educação do outro em formação. Não conseguimos (ainda bem!) entrar no outro, a despeito de muitos pais tentarem, pois assim veriam realizada sua ilusão de que são donos dos respectivos filhos, neurose avassaladora para o humano em desenvolvimento.

 

Em tempos de fórmulas prontas e fáceis, advindas da neurose digital coletiva, presenciamos um espetacular desfile de livros, sites, blogs, grupos de whatsapp, páginas, entre outros, que, municiados pelo pensamento cartesiano de causa e efeito, espargem falácias as mais diversas acerca do processo educacional. É comum nos depararmos com “máximas” como “deixe a criança fazer o que quiser, ser livre, senão se tornará um adulto reprimido”; ou cursos online que anunciam: “Como educar seus filhos e se tornar uma boa mãe em dez passos”.  E por aí vai.

 

A palavra “educação” deriva do latim educare, que por sua vez é uma derivação de EX,”fora”, “exterior”, e DUCERE, “guiar”, “conduzir”, “orientar”. Algo como “guiar para fora, para o exterior”. O processo de educação de um outro Ser não se presta a fórmulas prontas ou estratagemas pré-aquecidos encontrados na internet; tampouco as escolas absurdamente caras são garantias de que a criança receba “educação de primeira qualidade”. E, apesar da origem da palavra tratar de seu fim, o “para o mundo”, o processo educacional não ocorre verdadeiramente a partir do “exterior”, mas sim a partir do “interior”, interior de um Ser humano.

 

O ponto que pretendo atingir, e que de modo algum nega o valor de uma educação formal baseada em uma pedagogia séria e científica, é que o processo educacional é realizado de humano para humano e depende, fundamentalmente, além de métodos verificáveis (e outros nem tantos), do Ser que educa. Não me refiro à educação formal e pedagógica da escola, mas sim à base a partir da qual se erguerá esse novo Ser.

 

Toda pessoa é unidade em si, uma subjetividade onde se articulam afetividade e inteligência. No entanto, tal subjetividade não é dada desde o nascimento; inicialmente a criança não se percebe como unidade subjetiva. O estado de socialização é máximo no início da vida, ao ponto de se fundir no outro. Com o desenvolvimento do Ser em construção dá-se início um percurso de individuação progressiva onde a relação com o outro é um aspecto fundamental. Há um movimento de incorporação do outro para constituição de si (conduta de imitação), processo que progressivamente alarga as fronteiras do seu eu.

 

À medida que a criança caminha nesse processo de diferenciação e apropriação de si a partir do outro, paradoxalmente ocorre um movimento de expulsão do outro (oposição, negação do outro), conduta recorrente que favorece a diferenciação e que aparece em algumas fases de modo concentrado – por volta dos 3 anos, fase do personalismo, quando a criança nega sistematicamente o outro, afirmando a independência do eu. Outra fase é na adolescência, onde dizer não ao adulto é dizer sim à sua individuação e constituição própria. Cabe ressaltar que o processo de diferenciação nunca é total. Mesmo quando adulto, misturamo-nos ao outro, perdendo em certas situações a nitidez do contorno de nosso próprio eu, como ocorre organicamente na paixão por outro Ser ou violentamente no cansaço do trabalho que nos conduz a um estado de perda de identidade.

 

Desse modo, o adulto que educa precisa ver a criança de modo integrado. As complexidades dos processos educativos apontam para a necessidade de não dissociar campos que são indissociáveis, como afetividade e inteligência (Henri Wallon).

 

A função das emoções no desenvolvimento da criança é social. E o primeiro meio, primeiro recurso de interação desse novo Ser, não é propriamente o ambiente físico, mas as pessoas.

 

Somos a partir do outro.

 

É a partir das pessoas que a criança imerge no meio social e tem acesso a linguagem, fundamental para a estruturação do pensamento e construção de si. E mesmo quando a linguagem se consolida como recurso de interação social, as emoções continuam como manifestações presentes e fundamentais nas interações sociais. É a contagiosidade das emoções entre os indivíduos, que pode afetar o desenvolvimento da personalidade tanto positivamente quanto negativamente. O tom da voz, a expressão dos olhos, a postura do corpo “falam” muito mais a uma criança do que o conteúdo da fala em si. Adultos inseguros afetivamente e que duvidam do amor dos filhos tendem a criar crianças igualmente inseguras.

 

A inteligência nasce e se constrói graças ao primeiro momento de fusão emocional, a partir do qual a criança tem acesso à linguagem a partir do meio. A partir da tonalidade afetiva da linguagem do meio (pessoas), a criança se apropria da linguagem e se constrói a partir da linguagem afetiva; a criança aprende a representar a realidade. E com o desenvolvimento da inteligência a partir da afetividade, instala-se um antagonismo, um conflito entre os dois. E progressivamente a inteligência vai domando a afetividade. E tornamo-nos adultos que se deixam contaminar pelo meio, cuja linguagem instrumental e materialista nos faz racionalizados e neuróticos, com pensamentos utilitários e empobrecidos afetivamente.

 

Um exemplo de como a afetividade e a expressividade são fundamentais para a formação da inteligência da criança:

 

Criança não fica parada. Ela se movimenta, agita-se, inquieta-se. O movimento é a primeira forma de expressão da criança. O movimento e a inquietude da criança sustentam o processo de construção do fluxo de pensamento. É orgânico e naturalístico. É a dimensão expressiva da criança fundamental para o desenvolvimento posterior da capacidade de contenção motora e focalização da atenção, processos ligados a autodisciplina mental, construção complexa e aprendizagem. Ou seja, há um contínuo processo de interpenetração entre agitação e autocontrole. Costumamos tratar a contenção dos movimentos e o exercício da atenção como pré-requisitos para a aprendizagem, mas são também resultado do aprendizado, esse que necessita do movimento e da desatenção. Desse modo, é preciso afinar o olhar acerca dessa dimensão: quando o movimento deve ser coibido ou favorecido? Pais rígidos e castradores tendem a criar filhos que terão dificuldades no campo afetivo; pais permissivos em demasia propiciam um ambiente de desajuste e prejuízo em relação a noção de limites e na lida com as frustrações naturais da vida.

 

Não há regras quando se trata da complexidade infinita do Ser Humano. Há ainda o código genético de cada um. Há ainda a cultura da época de vida de cada um. Mas em tempos de fórmulas prontas onde todos viraram especialistas de internet, cuidemos mais de nossas próprias emoções. Ela é a base que sustentará o desenvolvimento da criança. E afetividade não se ensina em dez passos. Afetividade tem a ver com autoconhecimento, com liberdade, com segurança, com o olhar, com a linguagem, com o abraço, com o beijo, com o “eu te amo”.

 
 

Imagem: massacuca.com

 
 

Genisson Angelo Guimarães

Genisson Angelo Guimarães

Genisson é escritor, filósofo e médico psiquiatra, com formação em Psicologia Humanista com Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. Escreveu "Cuentos & Encuentros: entre la esencia y la realidad" (Espanha, 2014), publicado em 2015 no Brasil e em Portugal, e "A borboleta amarela e o mendigo" (2017). É alagoano, mas reside em São Paulo desde 2003, onde divide seu tempo entre as atividades médicas, os estudos filosóficos e a produção literária.
Genisson Angelo Guimarães
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